This is not a love story – Parte 1

“Eu só queria os anos que me foram roubados…” pensava Alice, diante da imagem refletida no espelho, enquanto penteava os cabelos longos e examinava cautelosamente as olheiras adquiridas pelas noites mal dormidas e suspirando profundamente por ter que enfrentar mais um dia. Saiu do banheiro, olhou no relógio e estava novamente atrasada para o trabalho, pegou a primeira roupa do armário mas não se sentiu bem, talvez por ser o mesmo trage social que usava todos os dias, então caiu em si que não havia muito o que se fazer a esse respeito. Fez uma maquiagem pra disfarçar o mau humor explícito em seu rosto, colocou seus óculos, pegou sua bolsa e chaves e saiu batendo a porta atrás de si.
Era uma manhã típica de outono, ventava um pouco e não tinha muito sol. Alice seguia para o ponto de ônibus como fazia todos os dias em um ritmo descompassado e desajeitado arrumando os óculos sobre o nariz a todo o momento e seus olhos fitando o chão por onde caminhava. Chegando ao ponto notou que estava vazio, e que não havia o movimento que costumava ver todos os dias, mesmo assim continuou esperando o ônibus, batendo o pé no chão ao som das suas melodias desafinadas de músicas que só ela sabia cantar, expressão de algum sofrimento interior.
Se existia uma coisa que Alice não gostava era de esperar, ficava irritada sempre que precisa aguardar por algo e alguém. Aquele dia já tinha começado meio torto o que já era um motivo para sua irritação e ter que esperar a deixava ainda mais nervos e foi entre uma musica e outra que algo aconteceu e modificou todo o rumo do seu dia e também da sua história.
Totalmente desligada de tudo e entretida em seu mundo musical Alice não percebeu quando um garoto alto, moreno e bem estiloso se aproximou dela e perguntou: – Oi, aqui passa o ônibus que vai para a Lapa? Ela não respondeu e ele não desistiu e cutucou o ombro direito dela que com uma expressão meio confusa tirou os fones de ouvido e respondeu: – Desculpa, não ouvi o que você falou. Ele sorriu para jovem que era linda, mas não combinava naquela roupa formal e perguntou novamente:
– Lapa, preciso ir para lá, o ônibus passa neste ponto?
– Sim,é aqui.É o ônibus que costumo pegar todos os dias, ele esta atrasado hoje, mas deve chegar em alguns minutos. Respondeu ela já bem interessada no moreno desconhecido que vestia calças xadrez e All Star, detalhe que ela percebeu e adorou
– Hmmm, desculpa te amolar, mas percebi que você está ouvindo William Fitzsimmons no seu Ipod.
Surpresa ela rebateu – Nossa, mas como voce sabe? E ele responde: é, tava um pouco alto, consegui ouvir.
Alice arrumou os óculos novamente caídos em seu nariz e olhava timidamente para frente e rapidamente espiava o rapaz pelo canto dos olhos, quando este se virava para ver se o ônibus estava vindo. Não sabia se deveria continuar a conversa ou se deveria voltar a sua profunda e hipnótica introspecção. Novamente de súbito o rapaz se dirigiu a ela – Tenho todos os CD’s do Fitzsimmons, é um artista surpreendente não? disse ele. Alice, maneou a cabeça e deu um sorriso educado para não deixar explícito que na verdade queria realmente conversar e esquecer das suas aflições internas. A distância já se aproximava o tão esperado ônibus e logo que entraram havia apenas dois lugares disponíveis, um ao lado do outro. Sentaram-se e enquanto Alice mordia nervosamente seu lábio inferior, o rapaz tentava observar seus olhos castanho-claro por cima dos óculos, e isso causava ainda mais nervosismo em Alice que havia até esquecido os fones de ouvido caidos por sobre seu casaco e ouvia apenas palpitações intensas em seu ouvido. Começou a pensar que estava enlouquecendo porque não havia sentido algum em se sentir dessa forma perto de um estranho, e como sempre demorava um tempo pra assimilar as situações principalmente nos dias que estava fora de si, percebeu que era o perfume do rapaz que havia despertado em nela essa sensação de uma lembrança esquecida dentro da alma, porém ainda não conseguia identificar onde e nem quando se sentiu daquela forma antes. Sentia sua mente dormente enquanto divagava na doce e quase intoxicante fragrância daquele cheiro e piscava cada vez menos sem perceber havia parado de morder os lábios que agora estavam entreabertos como se estivesse entrando em um transe profundo. Quando então o rapaz perguntou:
– Perdoe a falta de educação mas ainda não sei seu nome.
– Ah, sim ! Me chamo Alice e o seu nome qual é?
– Pietro.
A sonoridade da voz dele falando o seu nome deixou Alice em êxtase, tinha algo nele, ainda indecifrável, que despertava nela uma vontade louca de tentar decifrar que mistério trazia o garoto da calça xadrez. “Pietro” pensou enquanto colocava de novo os fones em seu ouvido e deixa os acordes embalarem seus pensamentos para um mundo só dela, onde as coisas ficavam coloridas e a imaginação ia longe, perdida em meio as fantasias que passavam pela sua mente nem percebeu quando Pietro passou para ela um pedaço de papel meio amassado e com uns números meio borrados e com um sorriso meio torto e sem graça disse:
– Desço no próximo ponto. É, eu, ãh, bem nunca fiz isso, mas sei lá, se de repente quiser conversar sobre o Fitzsimmons ou qualquer outra coisa me liga, vai ser ótimo te encontrar.
Ela realmente nao esperava isso, quando sua mente conseguiu raciocinar o que tinha acontecido ela abriu a boca para pensar em responder alguma coisa ele já tinha se levantando e estava descendo do ônibus. Foi quando as borboletas no estomago dela começaram a voar e por impulso ela levantou do seu banco e gritou:
– Pietro, espere !

Nota: @GilmoreLucassen também é autor dessa história !

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