Homem de lata

A correria insana do dia a dia impedia que eu enxergasse as coisas simples da vida. Estava tão absorta e envolvida com o mundo agitado, que nem me importava em defender um acalorado discurso que se baseava no fato do mundo ser uma enorme engrenagem e que se cada um cumprisse seu papel e sua responsabilidade de forma correta tudo giraria sem maiores dificuldades.
E junto comigo neste pensamento mecânico estava um senhor já velho que conseguia de uma forma indescritível separar a razão da emoção. Sensações como frio na barriga, amor, felicidade passavam despercebidas e eram controladas de uma tal forma por ele que seu apelido no local onde trabalhava era homem de lata, pois acreditavam, que aquele senhor tinha um coração tão frio e tão duro quanto um metal.
Ninguém buscava entender porque ele era daquele jeito, mas eu sempre ficava tentando imaginar o que poderia ter acontecido para que ele ficasse assim. Tinha várias teorias a respeito: um desamor, uma tragédia familiar, uma doença. Era em nossos horários de almoço que sentados na mesa redonda e com nossas bandejas de alimentos a nossa frente que ficávamos inventando histórias sobre ele.
Em um dia gelado e chuvoso me arrisquei ir até a padaria comprar alguns sonhos e mesmo andando bem depressa me deparei com a cena que jamais pensei em ver. Não, talvez, com quem estava envolvido com ela. Empurrando um carrinho de mão com um enorme panelão estava o Sr. Homem de Lata, em seus ombros carregava uma sacola gigante de onde tirava alguns doces para as crianças e no panelão estava a sopa fumegante que distribuía aos mendigos na rua.
Confesso que fiquei chocada com a imagem que nem reparei que a chuva tinha aumentado e que a essa altura já estava encharcada, foi ai que ele me viu, pensei em disfarçar, em sair correndo, mas com um aceno ele me chamou para ir ao seu encontro e eu sem muita escolha cheguei mais perto e ele perguntou se gostaria de um pouco de sopa para me aquecer, sem jeito aceitei.
Depois que terminei de comer uma das mais saborosas sopas da minha vida ele perguntou se eu gostaria de ajudá-lo a terminar de distribuir o alimento e os doces, continuamos pela avenida entregando o que talvez fosse a única refeição para alguém naquele dia ou até mesmo naquela semana e a cada pote que colocava na mão de um mendigo algo dentro de mim crescia. Era uma sensação estranha de realização que despertava a cada sorriso e muito obrigado que ouvia de um individuo que sempre procurei ignorar.
Não trocamos uma palavra e depois que terminamos tudo o Sr.Homem de Lata me disse apenas um obrigado e continuo empurrando seu carrinho, fiquei observando enquanto ele virava a esquina e naquele dia eu mudei.
Nunca comentei com ninguém sobre o que aconteceu, nem sobre o fato do homem que pensávamos ter o coração metalizado ser o homem mais generoso que conheci. Ainda não trocamos nenhuma palavra, mas toda semana eu encontro o Sr.Homem de Lata na mesma esquina, com o mesmo carrinho de mão e juntos descemos a avenida distribuindo alimento, esperança e amor para os desabrigados.Não precisamos conversar, não preciso saber da sua história, eu já sei de tudo sobre ele, porque definitivamente sua atitude vale mais do que mil conversas, mil histórias e mais umas mil palavras.

One thought on “Homem de lata

  1. Confesso que o texto me chamou a atenção, e não somente isso, me fez refletir por uns minutos. Não sei da veracidade do texto, se é apenas uma crônica, um conto, ou estória, mas, sim confesso ser emocionamente.

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