Unidas pela lembrança

Essa é uma história de duas irmãs diferentes na aparência, mas não em sua essência. Fátima, a mais velha, era daquele tipo de garota que sabia o que queria e não media esforços em conseguir. Alta, forte e guerreira era conhecida por todos na vila onde morava. Já, Lúcia, era mais baixa, mais fraca, mas não menos guerreira que Fátima, ambas, sabiam muito bem o que queriam e juntas corriam atrás. Abandonadas pelos pais ainda crianças cresceram em um orfanato até completar 18 anos, assim que Fátima conseguiu um emprego na casa de uma senhora resolveu que era hora de cuidar de si mesma e também de Lúcia. Em segredo percorreu a cidade em busca de um lugar para morar e encontrou uma modesta casinha em uma vila de um casal português, a placa avisava que ali só vivam famílias felizes. Ao ler isso, Fátima sentiu paz e teve certeza que tinha encontrado o local para finalmente começar sua vida. Em poucos dias mudou-se para vila trazendo consigo algumas mudas de roupas e uma enorme responsabilidade: cuidar de Lúcia. Não foi fácil, Lucia tinha apenas 16 anos, foi difícil conseguir legalizar a situação, matriculá-la em uma escola, manter tudo em ordem e ainda trabalhar o dia todo, mas ela não desistia tinha prometido para si mesma que não seria mais rejeitada na sua vida. Na vila as duas eram conhecidas como unidas. Uma tomava conta da outra, Fátima terminou os estudos e conseguiu uma bolsa na universidade. Lúcia, já tinha decidido que queria ser médica porque queria salvar vidas. Anos se passaram e a vida mesmo que difícil estava fluindo bem para as duas quando um golpe do destino trouxe uma notícia que mudaria por completo a vida delas. Um dia voltando da escola Lúcia sentiu fortes dores de cabeça que não passava de foram alguma, Fátima preocupada levou a irmã até o hospital. Horas depois de ser atendida e alguns exames recebeu a noticia como um soco no estomago, Lúcia tinha uma doença hereditária e rara na qual parte de sua memória ia sumindo aos poucos até ela se esquecer de tudo e até mesmo de quem ela era. Em meio a receitas médicas e datas de retornos agendadas, Fátima levou Lúcia para casa e dentro dela um pensamento: Não ia desistir da irmã, jamais. Acordava de madrugada para os medicamentos, abraçava quando Lúcia gemia de dor e começou a estudar maneiras de amenizar a vida dura que teria dali para frente. A memória de Lúcia foi falhando aos poucos. No começo eram pequenos flash’s de esquecimento até o momento que Fátima teve que se dedicar exclusivamente a vida da irmã que naquele ponto já estava bem ruim. Os vizinhos ajudavam como podiam e chegavam até a aconselhar Fátima a internar a irmã em alguma clinica, mas Fátima se recusava, sabia a dor que era ser rejeitada e jamais faria isso com a irmã. Ia à biblioteca municipal pesquisar maneiras de ajudar a irmã, lia livros científicos e nada trazia a resposta positiva que tanto queria. Foi então que resolveu que contaria histórias para Lúcia, pelo menos assim ela conseguiria se manter conectada de alguma forma a irmã. E assim, dia após dia, Fátima inventava histórias para a Lúcia. Não desistia, mesmo vendo que ela não esboçava reação alguma enquanto lia os livros, Fátima de alguma maneira entendia que aquilo ia trazer sua irmã de volta. Em um final de tarde quente e sentadas na varanda de casa, Fátima farta dos livros resolveu que contaria para irmã as histórias que elas vivenciaram juntas: Contou da felicidade de Lúcia quando descobriu que ia sair do orfanato, do primeiro dia de aula, do Natal que passaram juntas sentadas em frente a sua primeira árvore de natal, da primeira vez que as duas viram o mar e enquanto contava percebia um sorriso tímido aparecer na boca inexpressiva já algum tempo de Lúcia. Como um lampejo Fátima continuou contando fatos da vida da irmã e percebeu que como um milagre Lúcia estava retornando, ela estava lembrando daquilo. Levantou da cadeira, sentou-se aos pés dela e perguntou: Lucinha, você está aí? Está lembrando disso? A irmã que já não falava algum tempo olhou nos olhos da irmã e balbuciou: Obrigada por tudo, vou sempre amar você. E depois disso o momento passou, Lúcia voltou ao seu olhar inexpressível e perdido. Fátima em meio as lágrimas sabia o que iria acontecer dali para frente e se manteve forte. Uma semana depois e cumprindo o prometido pelos médicos, Lúcia faleceu. Mesmo em meio a dor Fátima seguiu em frente e trazia guardado dentro do seu coração as palavras de Lúcia. Jamais comentou com ninguém sobre aquela tarde quente em que trouxe a irmã de volta para ela, ninguém acreditaria, afinal milagres só existem para quem tem fé e isso Fátima tinha de sobra.

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