Memórias de um coração

Aos vinte anos minha vida mudou para sempre.
Ainda me sinto estranha ao sentar perto da janela para escrever minha história. Quem me conhece sabe o quanto resisti a essa idéia, mas de tanto ver meus filhos insistirem e depois que meu amado Geraldo se foi só me resta colocar no papel as lembranças que guardo na memória e no coração.
Se fechar os olhos posso voltar ao tempo, meus cabelos brancos voltam a ser loiro mel, minhas rugas e olheiras se transformam no que um dia foi conhecido pelos olhos de matar e ainda consigo sentir o vento do outono no meus ombros. Sinto o cheiro, ouço as músicas e regresso ao ano que conheci o que todo mundo chama de amor.
Em Bragança Paulista, pequena cidade situada no interior de São Paulo, igual a tantas outras do interior era quente no calor e fria no inverno. Eu morava com meus pais e meus outros sete irmãos em uma fazenda afastada do centro da cidade, foi com a minha mãe que aprendi a ler, escrever, costurar e cozinhar. Só tinha permissão de ir a cidade quando íamos a missa de domingo e acho que por isso esse era meu dia preferido da semana.
Calçava minhas melhores botas, vestia o vestido mais bonito que eu mesma tinha costurado para mim e mesmo presa aos olhares rabugentos do meu pai, que insistia em achar que mulher não foi feita para viver na cidade, eu sentava no primeiro banco da igreja. Não que eu fosse muito religiosa, gostava de sentar lá porque era onde todas as fofoqueiras costumavam se aglomerar para comentar sobre os últimos acontecimentos da cidade. Foi sentada lá que descobri que uma fábrica de tecidos estava sendo construída em Atibaia e foi naquele banco que pela primeira vez senti que estava na hora de tomar as rédeas da minha vida.
Tinha dezoito anos e tudo o que menos queria era continuar ordenhando vacas, escolhendo lenha para o fogão e costurando as roupas desgastadas dos meus pais e irmãos. Eu queria muito mais, queria conhecer o que se passava além das cercas da fazenda da minha família, sabia que existia um mundo, além disso, e era nesse lugar que queria viver.
Quando vi a noticia no jornal que a fábrica da cidade vizinha precisava de mulheres com experiência em costura, não pensei muito, arrumei minhas poucas peças de roupas numa valise, caminhei até o centro da cidade e fui atrás do meu sonho. Meus pais não entenderam muito minha decisão mas mesmo contrariados e assustados com minhas idéias um tanto libertinas para aquela época me deixaram ir.
Quando cheguei a fábrica uma fila de mulheres aguardavam serem chamadas para passarem por uma triagem e logo chegou minha vez, me fizeram algumas perguntas bobas e pediram para eu seguir com uma senhora gorda até as instalações onde as garotas solteiras morariam enquanto trabalhassem na fábrica.
Confesso que fiquei bem surpresa com o alojamento, bem diferente do que imaginava o local era limpo, arejado e cortinas de tecido grosso e branco dividiam as diversas camas espalhadas. No fundo ficava o banheiro e cada garota tinha um armário para guardar suas coisas, em cima da minha cama encontrei um colete marrom e diversos papéis onde se encontravam as instruções e horários que tínhamos que cumprir.
A rotina era pesada, quase nove horas de trabalho, operando as grandes máquinas que teciam os fios. As poucas folgas que tinha usava para visitar meus pais na fazenda e algumas vezes até levava alguma amiga que dividia alojamento comigo para lá. Estava feliz.
Já tinha se passado quase seis meses que tinha chego a fabrica quando Dna. Terezinha, supervisora da tecelagem, me chamou para avisar que seria promovida e não trabalharia mais naquele setor, iria auxiliar os diretores no escritório e foi no meu primeiro dia como secretária que conheci o bravo e lindo Sr. Geraldo.
Todos tinham medo dele, chefe dos motoristas dos caminhões de entrega tinha fama de mal educado e nada sociável. Quando chegava ao escritório todas as moças que já o conheciam fingiam estar ocupadas demais para atendê-lo, sobrava para mim então rubricar e registrar os papéis que autorizavam a saída dele para algum lugar do estado de São Paulo.
Eu era tão dedicada ao trabalho que nem percebia que as idas e vindas do Geraldo ao meu setor estavam sendo freqüentes e estava tão interessada em aprender a datilografar que nem imaginava que todas as garotas comentavam do interesse dele por mim. Mas em um dia nublado, frio e chuvoso deixei de lado toda minha atenção e interesse pela datilografia quando ele entrou na sala com suas botas sujas de lama e em suas mãos não existia nenhum papel e sim duas ou três rosas que tinha roubado da jardineira em frente a fábrica. Entrou, parou na minha frente, disse meu nome e logo na seqüência meio ofegante emendou:
– Sei que sou grosseiro e não mereço sequer seu olhar, mas estou farto de inventar desculpas e papéis falsos para vir até este balcão encontrar seus olhos e seu sorriso, como sei que você não tira seus olhos desta máquina de escrever optei por ser mais direto e vim até aqui sem desculpas e sem papéis para saber se você aceita ser minha namorada.
Fiquei sem ar, minhas pernas tremiam, a voz não saia e entre os mil olhares e suspiros das minhas colegas de trabalho olhei pela primeira vez nos olhos daquele que um ano depois  passei a chamar de meu marido.
Foi tudo muito rápido, nos casamos no verão em uma igrejinha na praça central de Atibaia, meus pais vieram da fazenda para a cerimônia e ficaram felizes quando conheceram a casinha que Geraldo tinha comprado bem em frente a fábrica. Um ano depois do nosso casamento dei a luz a nosso primeiro filho e logo depois vieram os outros quatro. Amava cada um deles e amava mais ainda o Geraldo.
Depois do casamento e com a chegada dos filhos ele deixou o emprego na fábrica e virou motorista de taxi enquanto eu cuidava das crianças e fazia pequenas costuras para as famílias vizinhas. Passamos por muitas dificuldades, era difícil cuidar de todos os filhos, mas juntos superávamos tudo o que vinha.
Na mesma rapidez com que nos casamos, os filhos cresceram, casaram e chegaram os netos. Ainda morávamos na mesma casa e os domingos continuavam sendo meu dia da semana preferido, era o dia em que a família se reunia para a tradicional macarronada. Os risos das crianças, as brigas dos irmãos e as fofocas das cunhadas me faziam bem. Adorava levar os netos para tomar Tubaína no bar ao lado de casa e vê-los brincar na praça era a coisa mais prazerosa que eu tinha.
Eu e Geraldo estávamos envelhecendo. Os almoços de domingo foram diminuindo, as pernas agüentavam somente as idas a padaria para buscar o pão e o leite. Os netos foram crescendo e tomando conta de nós, um dia um trazia o pão, no outro um aparecia para nos levar para almoçar fora.
Sentia que a saúde do Geraldo estava enfraquecendo a cada dia, ele sempre dizia que estava bem, mas eu o conhecia o suficiente para saber que ele não estava nada bem. No inverno de 2006, Geraldo se foi.
Já se passaram três anos e eu ainda costumo falar com ele, não passo um dia sem dar bom dia e sem desejar boa noite. Ele me deu os melhores dias da minha vida, os melhores presentes, os mais adoráveis filhos, netos e bisnetos.
Minha janela ainda dá para o terreno onde um dia foi à fábrica de tecidos, e apesar de Atibaia ter mudado muito o ar não mudou e toda vez que o vento bate ainda sinto o cheiro do diesel das máquinas e tenho a sensação de escutar as batidas das botas cheias de lama do Geraldo no assoalho de madeira do escritório.
Nunca deixei de usar nossas alianças, nunca tive vontade alguma de tirá-la do meu dedo porque assim como o Geraldo ela fazia parte de mim. Eu ainda o amo demais e enquanto sorrio, olhando para o céu que tantas vezes olhamos juntos, eu tenho certeza, eu o amei primeiro.

Nota: Aos meus avôs, que um dia me ensinaram que o amor verdadeiro existe e vence toda e qualquer situação.  Amo vocês, sempre.

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