Esse tal de amor

Apertava os olhos e fica sem respirar na tentativa vã de sentir alguma coisa. Andava pela sala, sentava na cama enquanto mentalizava um nome. Nada, não sentia nada.

Resolveu então dar ordens ao cérebro: Me deixe arrepiada. Me deixe sem ar. Faça o coração bater. Faça os olhos brilhar. Inútil, totalmente inútil. Continuava na mesma inércia de sentimento.

Ela queria isso. Precisa sentir de novo aquele tal sentimento que costumava chamar de amor. Porque sim, um dia ela amou alguém e depois que ele se foi tudo pareceu sem sentido, embaralhado, perdido, embaçado e cinza, muito cinza.

Entre goles de café, cigarros e ao som da vitrola lembrou-se de quando amava alguém. Era tão divertido. O mundo era mais colorido, via graça na menina andando de bicicleta na praça, encontrava mais sabor na feijoada do boteco e bebia menos café. Inspiração não faltava, estava sempre escrevendo e estudando música no seu velho piano, instrumento esse que deixou de lado desde que ele disse adeus.

Ficava sem ar só de sentir o cheiro dele no travesseiro e seus pelos arrepiavam quando tocava nele no meio da noite depois de um pesadelo. Brigavam pela pasta de dente, pela garrafa de água vazia na geladeira e pela toalha molhada em cima da cama. Discutiam para decidir qual clássico do Almodóvar iam assistir numa sexta feira chuvosa e quase saiam no tapa quando ela insistia em ouvir a mesma música do Beatles várias vezes seguidas.

Ela adorava tudo aquilo. Seu coração disparava sempre que o barulho de chave na porta anunciava a chegada dele e seus olhos brilhavam quando encontrava a luz dos olhos dele. Existia tanto carinho, cumplicidade e companheirismo que difícil mesmo era descobrir onde ele acabava nela.

Isso tudo era o que ela chamava de esse tal de amor que os poetas, músicos, cineastas adoram retratar em suas obras.Mas agora isso parecia tão distante, tão inacessível. Deus sabe como ela queria viver tudo aquilo de novo. Porque era bom, era vivo, era vibrante, era som, era melodia, era luz. Ansiava pelo dia que voltaria a sentir seu coração palpitando. No fundo sabia que esse tal de amor que as pessoas insistem em tentar descrever ainda era possível, de alguma maneira real e existia. Sabia também que um dia ele voltaria para dentro dela e quando chegasse essa hora ela voltaria a estudar piano.

 

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