Apartamento 51

Um dia resolveu mudar para o mesmo prédio que ele. No começo os encontros eram esporádicos, ela sempre saindo para trabalhar e ele chegando de uma noitada qualquer, com o tempo os esbarrões começaram a acontecer de maneira casual no elevador. Ela morava no 51 e ele no 73.

Em uma terça feira gelada, ela resolveu sair para explorar a rua e sentou em um bar qualquer. Por coincidência ele teve a mesma idéia e acabaram sentados um ao lado do outro. Naquela noite fizeram um trato, esqueceriam o lance do passado e seriam bons amigos. O pacto foi firmado com um apertão de mão e assim o fizeram.

Era na porta dela que ele batia quando precisava de uma colher de açúcar e para filar um pão com manteiga antes de dormir depois de uma balada. Ela tocava a campainha dele para pedir opinião sobre o que vestir quando recebia algum convite para sair e também para lavar suas roupas, era jornalista, ganhava pouco e não tinha máquina de lavar.

Ele era músico, birrento e metido a rockstar, mas ela o conhecia a ponto de deixar o café forte pronto às oito da manhã de um domingo porque sabia que ele iria aparecer por lá buscando curar sua ressaca. Sabiam tudo um do outro, compartilhavam da comida aos segredos e não existia sigilo em nada.

Brigavam o tempo todo, ele vivia implicando com a forma intensa que ela encarava as coisas e ela jogava na cara dele a forma leviana que ele vivia a sua vida, não passavam uma semana sem bater a porta um na cara do outro e berrar que nunca mais se falariam, duas horas depois, já estavam assistindo History Channel juntos.

Ela procurava por ele quando sua TPM aparecia e ele a esperava sentado no sofá com uma barra de chocolate enorme, uma garrafa de vinho e vários DVD’S de filmes antigos. Às vezes, pegava seu violão e tocava Beatles enquanto ela chorava e se olhava no espelho porque se achava a garota mais gorda do planeta terra. Ele entendia perfeitamente seus dias de nervo a flor da pele e foi em uma dessas noites que eles denominaram de “Papo, choro e tormento” que ela quebrou seu primeiro osso.

Após assistirem duas vezes seguidas Dirty Dancing (filme predileto dela) e secarem até a última gota da segunda garrafa de vinho, ficaram (bem) alegres e resolveram encenar a cena final do clássico do cinema. Como já era de se esperar, a dança terminou no hospital e ela ganhou um belo gesso no braço, e é claro que quando contavam essa história colocavam a culpa no álcool.

Vivia salvando a pele dele das garotas que ele costumava trazer para casa depois de um show qualquer, era no apartamento dela que ele aparecia cambaleando de madrugada depois de voltar triste e choroso de uma bebedeira, ela abria a porta sonolenta e voltava para a cama, ele tirava os sapatos, deitava ao seu lado e em instantes encaixava seu corpo no dela numa “conchinha” perfeita e dormiam até o sol aparecer pela janela incomodando o casal, que acreditem, eram apenas amigos.

Enquanto ela organizava seus discos de vinil ele desenhava ou escrevia uma frase qualquer na sua parede. Cozinhava enquanto ela assistia novela. Acordava ele todos os dias para lembrar que ele chegaria atrasado para gravar se não saísse da cama naquele momento.

Palpitava nas músicas e composições dele, passava horas sentada no chão do seu apartamento ouvindo ele gravar e dando seus pitacos.Ele agregava valor aos seus textos e a incentivava a terminar seu roteiro de cinema e dar um ponto final no livro que ela não tinha coragem de finalizar.

Passavam horas imaginando e planejando o que fariam quando se tornariam famosos e ricos, já que ela iria ganhar o Prêmio Pulitzer e a banda dele ganharia muitos Grammys e gravaria um disco com o Paul.

Ele criticava e era ranzinza com todos os caras que ela namorava e ela fazia cara e bocas para as garotas com cara de menininha que ele costumava sair. Nunca, jamais, em hipótese alguma admitiam, mas morriam de ciúmes um do outro.

Iam à feira juntos todo o domingo, riam das cores dos cabelos das senhoras de idade e não saiam de lá sem cometer o ato gorduroso de comer um pastel de queijo com caldo de cana. Ele só não aparecia em sua porta nos dias que os pais dela apareciam por lá, apesar que teve uma noite que ele esqueceu e apareceu gritando seu nome as quatro da manhã, ela saiu de pijama no corredor para lembrar que aquele dia ele teria que curar sua bebedeira em sua própria casa.

Os amigos não entendiam aquela relação: Viviam como namorados, mas como sempre frisavam, eram apenas amigos e nada mais. No fundo, ambos se amavam e sabiam que eram feitos um para o outro, mas também tinham a plena consciência de que não eram destinados a ficarem juntos. Compartilhavam daquela amizade como se fosse para sempre porque a única coisa que conseguia separá-los eram dois andares e algumas paredes de concreto.

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