Serendipity

Tinha apenas seis anos, mas lembro cada detalhe daquele fim de tarde, com certeza, um dos melhores dias da minha vida.

Era uma quinta-feira como qualquer outra, o vento do outono fazia as janelas da casa dos meus avôs baterem e o frio vinha pelo corredor e chegava até o quarto. Estava sentada no chão desenhando uma casa com grandes janelas azuis quando meu avô se aproximou com uma caneca de chocolate quente, era o sinal de que vinha uma grande história.

Ele sentou em sua velha cadeira de balanço e eu me descansei a cabeça em suas pernas e ele começou: Há muito tempo atrás, no país de Serendip, havia um rei grande e poderoso de nome Giaffer. O rei tinha três filhos e a eles dedicava todo o seu amor. Por ser um bom pai, ele se preocupava muito com a educação, decidindo que deveria deixar a eles não apenas um grande poder, mas também virtudes imprescindíveis aos príncipes. Assim, o rei Giaffer procura os melhores tutores possíveis para seus filhos, aos quais confia a formação, recomendando que deveriam ser ensinados de maneira que pudessem ser reconhecidos por sua boa reputação. Desse modo, quando os mestres consideraram que os príncipes estavam suficientemente educados, tanto nas artes quanto nas ciências, relataram ao rei. Porém, o rei ainda tinha dúvidas acerca da formação e reúne-os, declarando a eles, numa simulação, que iria se retirar do reinado para seguir uma vida contemplativa deixando a eles o encargo. Cada um deles, polidamente, declinou do convite, afirmando, de uma forma ou de outra, que somente o pai tinha sabedoria superior e aptidão para governar. O rei fica satisfeito momentaneamente, mas em seu íntimo ainda pairava a dúvida se não teriam recebido apenas uma educação privilegiada, sob sua proteção. Resolve então fingir ficar com raiva deles pela recusa ao trono e envia-os em viagem, para distante de suas terras.
Aconteceu que, mal haviam chegado ao exterior, resolvem descobrir pistas para identificar com precisão um camelo que jamais haviam visto. Concluem, então, que o camelo é coxo, cego de um olho, sem um dos dentes, transportando uma mulher grávida, e carregando mel de um lado e manteiga do outro. Quando, depois, encontraram um comerciante que procurava um , relataram as suas observações. O comerciante, pasmado, acusa-os de terem roubado o camelo e leva os três príncipes diante do Imperador Bahram, exigindo punição. Os três princípes negam qualquer crime, ao que Bahram indaga como poderiam ter sido capazes de descrever com tanta precisão um camelo, sem nunca o terem visto. Mas, a partir das respostas, baseadas em evidências somadas em pequenas pistas, dadas pelos três príncipes, percebe a inteligência dos herdeiros de Serendip na identificação do camelo.
Os princípes disseram que, como a grama havia sido comida pelo lado da estrada onde estava menos verde, haviam deduzido que o camelo era cego do outro lado. Também falaram que, como havia pedaços de grama semi-mastigados na estrada, do tamanho de um dente de camelo, eles haviam deduzido que haviam caído através do espaço deixado por dente perdido na boca do camelo. Ainda, que como as faixas de marcas na estrada deixavam as impressões em apenas três metros, o quarto estava sendo arrastado, pelo que indicava o animal ser coxo. A questão da carga, para os três príncipes, tinha sido muito simples, posto que haviam formigas de um lado indicando que tinham sido atraídas pelo mel, de um lado da estrada, e o outro lado apresentava manteiga derretida derrramada. Quanto ao transporte da mulher, um dos príncipes disse: “Imaginei que o camelo transportava uma mulher, porque havia notado, próximo à trilha, onde o animal deixara marcas de ajoelhar-se, o rastro visível de pés, claramente femininos, onde tinha resquícios de urina humana que, pelo seu próprio odor, denotava ter sido deixados por uma mulher que tinha mantido relações sexuais há algum tempo. Um outro príncipe, esclareceu que concluíram a gravidez da mulher, pois próximo às marcas dos pés, haviam marcas de mãos femininas, denotando que ela havia se apoiado com as mãos para urinar o que configurava o peso da gravidez. No momento que terminavam o relato ao Imperador, adentrou à corte, um viajante que discorreu ter encontrado o camelo vagando pelo deserto e que o havia reconduzido ao dono, bem como sua carga e transporte.
O Imperador Bahram, além de, evidentemente, poupar as vidas do três príncipes, os encheu de ricas recompensas e os elegeu  conselheiros do Império.

Fascinada pelo conto nem me dei conta que ele já estava em pé, foi quando me deu um beijo na testa e disse: Serendipity, minha querida.

De alguma forma aquela tarde ficou gravada em minha memória e eu só fui entender o significado daquela palavra 20 anos depois quando recebi uma mensagem que dizia: “Essa noite depois que foi embora por aquela porta descobri que não gosto da palavra amor, então resolvi chamar o que sinto agora de serendipity, uma palavra muito expressiva que vou tentar te explicar, já que não tenho nada melhor a fazer: você a compreenderá melhor através da sua origem do que através de definições. Eu li, uma vez, um conto chamado “Os três príncipes de de Serendip”: Nele, suas altezas realizavam contínuas descobertas em suas viagens. Descobertas por acidente e por sagacidade, de coisas que, a princípio, não estavam buscando. Por exemplo, um deles descobre que uma mula cega do olho direito,andava sempre, na beira da estrada pelo lado esquerdo, já que lá, estava a grama já comida. Compreende, agora o Serendipity? Entende agora o que sinto?”

Reli a mensagem muitas vezes e fui dormir. Foi nos meus sonhos que voltei a ser a garotinha sentada no chão e vi meu avô ao meu lado dizendo: “Encontrar algo é uma coisa, encontrar algo que não se procura, é outra; é serendipity! Apenas diga sim e seja feliz, minha querida”.

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