Na estante

Ocupava o lugar de honra da casa, era na parede central que guardava livros, troféus, enfeites e bugigangas. Mas não colecionava somente isso, em suas prateleiras de madeira maciça costuma guardar também o resumo de suas paixões.

Foi em uma madrugada fria e chuvosa que sentou no sofá e começou a analisar aquela estante e parou exatamente na prateleira onde imaginariamente guardava seus amores. Quanta história tinha guardado ali, de repente sentiu saudades dos personagens e dos quais não se cansava de recordar a felicidade extraordinária que proporcionaram quando passaram por sua vida. Lembrou de como temia o final de cada história, mas não se deixava abater, afinal, o fim é sempre inevitável.

Continuou remexendo seu baú de lembranças pensando nas histórias que descartou nas primeiras folhas: ora por serem ininteligíveis na época, ora por carregarem uma prepotência insustentável. Um sorriso meio torto apareceu em seus lábios ao trazer à tona algumas das mulheres que guardavam ali, como troféu de suas tolas conquistas.

Recordou também as histórias curtas, magras, fáceis de ler. Poucas foram as sedimentadas dentro dele, tantos amores-aventuras que poderia mensurar, sem mais nem menos, sem remédio, sem desculpa, não se arrependia de nenhum deles.

Um barulho o fez despertar e voltar seu pensamento para o presente. Levantou do sofá certo de que amores a gente inventa, imperfeitos vão e vem e já tinha vestido sua armadura para continuar colecionando cada um deles.

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