Faz a cena que quiser

Ela era do tipo que não se permitia algumas coisas e se apaixonar estava no topo da lista. Já estava tão acostumada a controlar seus sentimentos, que negar e se privar de certos pensamentos era fácil demais para ela.

Não era fria. Tinha seus casos ao acaso e simplesmente se limitava a não deixar-se levar por emoções e batidas aleatórias do coração. Claro que já tinha se apaixonado, não só uma vez, mas muitas vezes e em todas o resultado foi tão frustrante e ruim que preferia viver sem dar ouvidos as mensagens que recebia do coração.

Mas foi em uma noite gelada e chuvosa que algo a fez mudar de opinião. Foram amigos em comum que apresentaram ele. Do tipo, lindo demais para não encarar, resolveu se aproximar para conhecer mais sobre o dono daquele par de olhos castanhos esverdeados. Conversaram a noite toda, riram, trocaram olhares e gentilezas.

O que era para ser apenas um encontro casual em uma noite qualquer, se repetiu por várias e várias noites. A sintonia era tão perfeita que resolveu quebrar algumas regras e permitiu seu coração a se apaixonar por ele. Coisa rara, mas porque não? diz ela para si mesma.

Eram sessões de cinema, horas de sofá e café, experiências gastronômicas no pequeno fogão da casa dela, taças de vinhos, chocolates, conversas ao pé do ouvido. Ele a apresentou para os amigos mais chegados, desfilavam pelas ruas e avenidas como aqueles casais apaixonados que ela alguns dias atrás chamava de tolos.

Sem explicações, ele foi sumindo aos poucos, não respondia suas mensagens, parou de ligar e é claro como já era de se esperar, o final foi tão ruim e frustrante como todos os outros. O céu desabou de repente e o jogo tinha acabado.

Não descabelou nem correu atrás. Continuou nutrindo silenciosamente a paixão cruel e desenfreada que sentia por ele, mesmo passando bons tempos sem trocar um oi não consiga se desprender do sentimento. Com a desculpa de buscar um livro perdido, um dia reapareceu, sem falar muito, bateu em sua porta e ela com o coração acelerado o deixou entrar.

Trocaram meias palavras. Buscava respostas naqueles olhos esverdeados, mas elas não apareceram. Podia fazer a cena que quisesse e assim fez:  devolveu o livro e pediu para ele ir embora de uma vez.

– Pô, cupido, nem pra acertar a flecha dessa vez? Pensou ela enquanto se livrava dos saltos altos que apertavam seus pés e os atirava em direção da porta pela qual ele saiu para nunca mais voltar.

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