Quando eu tinha 10 anos

Ainda lembro o dia que comerei meus dez anos. Os amigos corriam pelo quintal de casa e eu tomava cuidado para não sujar o vestido branco e perder meus novos sapatos. Naquele dia, mesmo sendo criança, apaguei a velas do bolo e mentalmente tracei uma lista das coisas que faria durante minha vida. Hoje, me lembrei de todas elas.

1 – Tomar chuva enquanto pulava as poças d’água

2 – Andar de bicicleta pela cidade sentindo o vento bater no meu rosto

3 – Dançar todos os dias no meio da sala

4 – Ajudar as crianças da África

5 – Ser pianista

6 – Escrever um livro infantil

7 – Voar

8 – Comer um jantar de chocolate

9 – Beijar um príncipe

10 – Ter um final feliz

Pareciam coisas tão bobas, tão inocentes, infantis, talvez. Mas era parte do que eu queria ser.

Dezesseis anos se passaram, quase dezessete para ser mais exata e quase nada dessa lista aconteceu. Não tomo chuva porque não posso pensar na idéia de ficar doente e faltar ao trabalho; não ando de bicicleta porque trabalho todo final de semana e nunca tenho tempo para isso, quase não danço no meio da sala porque estou sempre cansada demais para isso, não consigo ajudar as crianças da África porque estou mais preocupada em cuidar de mim mesma, parei de tocar piano porque achava que não tinha talento algum para continuar, nunca escrevi um livro infantil porque deixei de acreditar em contos de fadas, nunca tentei voar porque criei certo pânico de grandes alturas, parei de beijar príncipes porque comecei achar que beijar sapos trazia menos sofrimento, não tive um final feliz porque deixei de acreditar no amor.

E se de repente eu voltasse a ser a garotinha dos cabelos compridos que tomava chuva sem se preocupar com nada, que andasse de bicicleta imaginando que estava explorando uma nova cidade, que dançava balé no meio da sala mesmo sem tocar nenhuma música, que dava todo seu lanche na escola para aqueles que nunca tinham nada na lancheira, que ficava nervosa quando errava a sinfonia de Mozart no piano, mas nunca desistia de tentar. Que acredita em palácios, príncipes, princesas e resolvesse contar uma história sobre eles, perdesse o medo de altura, parasse com essa loucura pelo corpo perfeito e comesse chocolate sem culpa e todo dia, descobrisse que príncipes não existem, mas que você pode deixar de beijar alguns sapos, voltasse a ser a menina que acabava com todo o papel higiênico da casa porque precisava ter o vestido de noiva imaginário com a maior calda do mundo para atravessar o corredor do quintal e dizer sim para alguém?

Eu escolhi crescer. Optei por virar uma adulta bem sucedida no trabalho, ganhar dinheiro e conseguir tudo o que eu queria. Abandonei os sonhos bobos e resolvi mentir para mim mesma. Acreditei que era isso que eu queria ser e vivo assim desde então.

Cara eu, não quero ser mais nada disso.Não quero mais acreditar na mentira que inventei para mim mesma.  Quero voltar a ser a garota desastrada que caia da bicicleta, que ficava com tosse porque tomava chuva, que comia todos os chocolates escondidos na gaveta da avó, que tocava piano sem se preocupar se estava bom ou não, que inventava histórias para as crianças das ruas cheias de príncipes, princesas e duelos, aquela que acreditava no amor, em casamento e principalmente em finais felizes.

Uma vez Picasso disse “Torne-se quem você é”. Daqui para frente, é exatamente isso que vou fazer.

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