Sinto que é você

“Eu não quero viver longe de você. Digo, viver sem falar contigo, sem saber como foi o seu dia, o que você fez, como esta se sentindo”.

– Caio Fernando Abreu.

 Juntos eles eram simples. Ele era o melhor amigo, aquele com quem poderia ser quem realmente era. O que podia vê-la de pijamas xadrez e pantufas, o único que se arriscava a experimentar suas aventuras na cozinha, aquele que ouvia sobre o dia chato, o chefe imbecil e os amores desiludidos. Ele era a melhor companhia que já tivera na vida, porém, agora estavam em um momento de transição e ela estava tentando encontrar caminhos para lidar com aquilo que ainda eram e o que um dia poderiam ser.

Não podia deixar de encarar a situação e com borboletas constantemente voando em seu estômago buscava controlar a aflição que atingia cada poro do seu corpo. Levou um tempo até absorver o que sentia, ele sempre foi um bom companheiro, tinham longas conversas, protegiam um ao outro, riam das pessoas nas ruas, dividiam boas garrafas de cerveja e algumas (ou muitas) confissões. Um dia, sem entender porque não conseguia contar para ele sobre um quase namoro que estava para começar fechou os olhos e imaginou como seria se finalmente resolvesse dividir a vida com alguém e não se surpreendeu quando viu ele ao seu lado.

Em pequenos flashes conseguiu imaginar ele sentado na mesa com sua família, o visualizou acordando ao seu lado e vislumbrou até o que era impossível para ela: atravessar um tapete vermelho. Era ele, estava sempre ao seu lado e ela não tinha se dado conta o quanto aquilo representava e quando abriu os olhos e voltou à realidade a sensação era que fogos de artifício explodiam por todo seu corpo e uma frase, desde então, ficou engasgada em sua garganta.

Em um ápice momentâneo, colocou tudo o que sentia para fora e ficou aliviada. Imaginou que daqui para frente estariam contentes juntos, acreditou que enfrentariam suas limitações um ao lado do outro, mas percebeu, depois de uma noite juntos que existia um longo caminho a ser trilhado e que não existia tempo certo para a caminhada chegar ao fim.

Não podia afirmar que era sua alma gêmea, até porque achava o termo piegas demais, mas tinha noção de que ele era tipo um guia. Anos se passaram e ao lado dele encontrava diversão, amadurecimento e autoconhecimento. Porém, aquele momento truncado em que chegaram perfurava seu peito, mas ela não conseguia desistir de tudo, simplesmente porque as três palavras na sua garganta faziam sentido depois de muito tempo e ela não ia perder isso, não ia abrir mão daquilo que sempre procurou e finalmente encontrou.

Sim, juntos poderiam evoluir. Quem saber ter filhos, uma família, a casa branca de janelas azuis que apareciam constantemente em seus sonhos. Acreditava que juntos seriam geniais, encontrariam a cura das mágoas do passado e cresceriam juntos. Sabia que um poderia inspirar o outro.

E por saber disso tudo, ela continuaria ali onde sempre esteve: ao seu lado. Continuaria sendo a melhor amiga que já foi de alguém e pacientemente esperaria que os mesmos fogos de artifícios que explodiram quando ela fechou os olhos naquele domingo gelado também tomassem conta dele. Sabia que um dia isso aconteceria e ela esperaria por isso, porque ele era a única vontade que tinha de ter alguém ao seu lado, ele era do tipo que valia e pena e ela não perderia isso por nada nesse mundo.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s