Choro dos desesperados

Um dia depois e a parede de um hotel em SP esconde uma mensagem de luto e tributo a vida.
Um dia depois e a parede de um hotel em SP esconde uma mensagem de luto e tributo a vida.

Preguiçosamente saiu da cama, arrastou seu corpo até o banheiro e como fazia todas as manhãs escovou os dentes encarando seu reflexo no espelho. – Quem eu realmente eu sou? O que eu realmente quero? pensava enquanto a escova passeava ferozmente pela sua arcada dentária.

Jogou água fria no rosto para ver se acordava do transe rotineiro de toda manhã e voltou ao pequeno quarto e sala. Enquanto decidia o que vestir ouvia as notícias do jornal da manhã. Parecia um dia normal, como qualquer outro, sabia que seria um dia quente. Não sabia o que vestir.

De repente uma notícia a faz paralisar com a jeans ainda nos joelhos: – Morre o cantor Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr, dizia a jornalista de cabelos curtos arrumados e batom rosado.

Sentou. Não, não o conhecia. Ele apenas fez parte – com suas canções – dos momentos adolescentes mais intensos de sua vida. Suas músicas embalaram amores jovens, dias de luta, dias de glória.

Terminou de se arrumar e olhou seu reflexo no espelho novamente. Agora maquiada e com roupas de estilo, não era mais aquela cara lavada que escovava os dentes enquanto se perguntava o que queria da vida.

Saiu para o trabalho, enfrentou o metrô lotado e ouvia todos cochichando e comentando: Chorão, morreu não acredito. Chegou ao escritório, deu bom dia aos colegas, encheu a caneca de café forte e fumegante, ligou o notebook.

Notícias. Muitas notícias davam conta do que poderia ter acontecido. Perplexa clicava no mouse vendo as fotos de um apartamento revirado. Marcas de angústia e solidão por todo o local, marcas de tristeza nas paredes, resquícios de drogas e bebidas usadas para preencher um vazio, um corpo jogado no chão: morto, inerte, paralisado.

Se trancou no banheiro e chorou. Lágrimas grossas corriam pela sua face. Não ouvia a voz do cantor já tinha anos, mal sabia por onde a banda andava. Mas chorou, pela dor de entender que o que falta no mundo é um pouco mais de amor e muito, mas muito mais de esperança e fé.

“Com o coração partido eu tomo cuidado pra que os desequilibrados não abalem minha fé pra eu enfrentar com otimismo essa loucura”

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