Essa nossa canção

Hoje coloquei nossa música para tocar. Aquela que costumávamos dedilhar a quatro mãos no velho piano da sua sala.

Desde que sai da sua casa naquela tarde fria de julho eu nunca mais toquei piano. O som de apenas um dó, dói. Aquela dor chata da falta que tu ainda faz.

Hoje coloquei nossa canção para tocar e mesmo que por instante, senti seu hálito quente e cheirando a menta do seu chiclete cantando em meu ouvido, o calor do toque delicado de suas mãos corrigindo o acorde que insistia em errar e consegui ver sua cabeça se movimentando para marcar o andamento dos acordes.

Com você meu canto era afinado. Adorava a maneira como ao abrir meus olhos enquanto cantava encontrava o seus me observando com aquele sorriso torto e cheio de charme. Acho que deveria saber que não canto mais.

Acho que fui eu que te amei primeiro. Me apaixonei no primeiro dia que te vi e te amei no momento que baixinho me disse enquanto ainda estavámos em pé naquele pub escuro e barulhento: Guria, vamos sair daqui e dançar pelas ruas da cidade.

Por alguns meses dançamos pelas ruas, pelas praças e no extenso corredor que me levava até seu quarto. Lembro das nossas tarde preguiçosas, eu deitada no sofá lendo algum romance britânico antigo e você sentado na velha poltrona murmurando alguma canção do Beatles enquanto fumava. As canecas de café ao longo de todo o dia e a troca dos cadernos do jornal amassado. O domingo deixou de ser meu dia preferido.

Seus olhos azuis piscavam para mim enquanto preparava o jantar e tirava minha concentração quando você surgia assoviando Donovan enquanto abria o vinho. Deve lembrar do dia que cortei o dedo enquanto picava os tomates.

Me sentia atordoada com o perfume de sua loção pós barba e da sua pele ainda quente do chuveiro cheirando sabonete líquido e o meu shampoo, porque apenas fingia que não sabia que roubava um pouco dele diariamente.

Isso não me incomodava. Não me incomodava também quando me acordava no meio da noite para ouvir alguma composição que fez em meio a suas noites insones e nem quando me ligava no meio do dia para dizer algumas bobagens.

Adorava como, mesmo morrendo de sono, me acompanhava nas noites em que eu não sentia vontade de dormir e passava horas escrevendo sempre lendo alguns trechos para você dar sua opinião. Contrariando seu pedido, nunca terminei de escrever aquele livro.

Hoje botei nossa música para tocar. Não sei se porque gosto de sofrer ou por ainda te amar, mas hoje, coloquei nossa canção para tocar e por um momento me permiti sentir saudades de tudo o que não vivemos.

And at the end of all your lines

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s