Teorema de Pollyanna

“[…] Parece que ela era órfã de mãe e filha de um pastor pobre do Oeste, criada pela Sociedade das Senhoras Auxiliadoras com doações de Missionários, vindas em barris. Quando era uma menininha, quis uma boneca, e tinha confiança que ela viesse no próximo barril de doações; acontece que nada veio, a não ser um par de muletas. Claro, ela começou a chorar, e foi então que o pai lhe ensinou um jogo para descobrir algo de bom em todas as coisas que aconteciam. Ele disse a ela que podia começar ficando muito contente por não precisar das muletas. Esse foi o início. Pollyanna disse que era um jogo adorável, que vinha jogando desde então; e que quanto mais difícil fosse encontrar um motivo para ficar alegre, mais divertido era, a não ser quando parecia impossível, como às vezes acontecia.” 

pollyanna-1960-001-00m-r1l-posterDizem por aí que toda Pollyanna carrega  uma atitude otimista ( bem grande!) dentro de sí.  O tão conhecido “Complexo de Pollyanna” – expressão baseada num clássico da literatura infanto-juvenil de autoria da escritora Eleanor Porter, publicado em 1913, e que fez um sucesso enorme entre as adolescentes da época – existe, talvez.

No romance, Pollyanna, uma menina órfã  meiga, ensinava a cidade inteira onde morava, o “jogo do contente”, que consistia em ver algo de positivo em tudo quanto era desgraça que surgia à sua frente. Assim, síndrome de Pollyanna se traduz por aí.

Não que eu tenha vocação pra ser Pollyanna todo dia.  Tem dias que  continuo doce, meiguinha e insossa e tem dias que sou azeda ( das grandes!).  Mas é que existem momentos tão TPM na vida da gente que não há o que se fazer: caso você não possa apertar o botão “F”, o jeito é apelar pro famigerado Jogo do Contente, e tentar arrancar da situação o que há de “menos pior”.

Tô gorda?  Meu chefe me lascou? Tá chovendo e meu cabelo tá uma merda? Aquele carinha de sexta não ligou? Tô endividada? Vou fazer 30 anos. Em dias azedos, relaxo e faço um jogo do contente imaginário: olho para minhas mãos e reparo que minhas unhas estão lindas e bem-feitas, meus quadris e minha coxas enormes ainda cabem em um calça 44 ( pq eles já foram 56!), tenho todos os livros do Jamie Oliver… É, sou realmente uma privilegiada!

Psicologicamente, estar sempre feliz revela incapacidade de entrar em contato com a dor, o que impede de amadurecermos. Ser resiliente é positivo, mas não podemos disfarçar situações e fingir que estamos sempre bem. É necessário vivenciar os sentimentos que advém das perdas, dos lutos e das frustrações.

Criar uma realidade distorcida e viver a vida como uma ingênua brincadeira, se deslumbrar com pequenos fatos e assumir falsos papéis, é uma tentativa de enganar a si e vender uma falsa ilusão para outros. Quem troca a vida por uma fábula, vive de fantasia e se aliena do mundo, acabando por acumular frustrações e não amadurecer com as experiências da vida.

Mas é óbvio que isso não quer dizer que devemos ver o mundo de forma cinzenta, sem nenhuma beleza diante das adversidades, afinal, tem dias e  horas que não existe nada melhor do que enganar a nós mesmas. E a danadinha da Pollyanna (eu!)  sabia muito bem como fazer isso!

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