Melodia.

Você entra pela porta da sala tentando não fazer muito barulho e esbarra em mim.  A gente se senta no sofá, conversa e ri. Ri da gente, ri através do cansaço do dia cheio, ri pela janela e olha uma lua meio gorda, meio cheia de saudade, meio tentando chamar atenção.

Você me fala de você e diz como é o teu mundo. Conta das histórias todas enquanto se despe na minha frente pra tomar um banho quente.  Depois deita do meu lado com sua caneca de café e um livro novo.

Aninho-me no seu peito enquanto você lê,  escuto sua respiração,  sinto seu coração pulsando no meu ouvido e decido deixar você sentar na beirada da minha cama e me acordar de surpresa – pra morrer de susto e minimizar esse meu medo de aproximação.  Deixo você escolher o cinema, o horário e a sessão.

Decido deixar minha perna bater irritantemente num ritmo desacelerado e as minhas mãos ficam suadas durante o filme e deixo você segurar minhas mãos e envolvê-la nos seus dedos, nos laços e numa ternura só é que fica difícil explicar. Não nego mais, meu sorriso é mais feliz com você.

Deixo você entrar e esqueço quem já fui. Deixo todo meu receio machucado de lado e te encaro nos olhos, sem casca e confesso baixinho pra mim mesma que faz bem cuidar e ser cuidado por alguém, mesmo que das outras vezes o cuidado tenha acabado com uns ferimentos profundos a ferro e brasa.

Decido largar minhas tabelas do Excel e todos meus cálculos precisos demais sobre afastamento e quilometragem, essas justificativas esfarrapadas que se resumem a medo.

Apago a luz e deixo você se esconder em mim.

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