A Ane.

(Ela cantava!).

Ainda lembro-me do dia que a Ane me ligou e perguntou: “Podemos tomar um café, preciso conversar”. Naquela mesma tarde eu fui a primeira pessoa, a saber, antes mesmo que toda sua família, que o câncer tinha voltado. Choramos juntas.

Na semana passada perdi não apenas uma grande amiga, eu perdi a pessoa que me ensinou muito sobre fé. Foram três anos compartilhando alegrias, dores, xicaras de chá, jantares em casa e mesmo em nossa última conversa ainda no hospital ela me dizia: “Minha vida está nas mãos de Deus”.

Tinha acabado de retornar de Roma quando abri o Facebook e nos meus feeds de noticias a pior de todas: ela se foi sem nem receber o cartão postal que postei para ela no dia anterior. Longe de tudo, vivendo sozinha em Londres, eu acordei na manhã seguinte me sentindo triste, muito brava e extremamente machucada. Perder a Ane foi um baque, um chacoalhão, um vazio.

aneQuem me conhece sabe que eu escrevo. Escrevo quando estou feliz, quando estou amando, quando estou indignada, quando estou triste. Simplesmente sento e lido com todos esses sentimentos deixando as palavras virem como uma válvula de escape.

O processo de lidar com a morte de uma grande amiga é dolorido e demorou uns dias para eu conseguir ter algum tipo de conversa com as palavras sobre tudo que eu senti (e ainda estou sentindo) ao lidar com a perda dela. A realidade é que eu nunca soube lidar com perdas, não sei dizer goodbye, odeio despedida. É como aquela calça jeans que você comprou em promoção no shopping na esperança de um dia entrar nela e sabe que nunca vai usar porque é dois números menores que o seu.  Assim sou eu quando me deparo em situações como essas. Simplesmente não cabe, não entra!

Ainda me sinto muito frustrada por não poder ter feito nada que pudesse salvar a vida dela ou amenizar toda a dor que sei que ela sentiu durante quase três anos. Mas em meio toda a minha raiva, frustração, tristeza, eu me lembrei dela dizendo enquanto dividíamos um pedaço de bolo de chocolate: “Polly, eu não sinto raiva de Deus ou de ninguém por ter que enfrentar tudo isso duas vezes, me sinto feliz, porque de alguma maneira eu sei que minha vida aqui teve um propósito lindo.” Isso me deixou em paz.

Eu amava a Ane, todos amavam, Deus a amava. E se eu hoje eu estou aqui sentada escrevendo sobre ela, é porque ela cumpriu seu propósito aqui na terra e deixou o maior legado que alguém poderia ter deixado: o da fé.

Ainda choro (e acho que vou chorar algumas vezes por um tempo) porque dói, sempre vai doer. Vai sobrar falta nos meu Instagram, nos feeds de noticias do meu Facebook, na minha caixa de emails e no meu coração. Ela vai ser como o vento, às vezes você esquece-se dele, mas ele aparece do nada soprando, bagunçando seus cabelos, trazendo um furacão.

Porque a Ane era assim. Ela chegava de mansinho, trazia consigo um sorrisão na cara, uma vontade imensa de viver o quanto podia, um humor ácido, uma felicidade sincera. Chegava dizendo: “Cade o café e a rabanada?” e emendava com um “Me conta tudo sobre seu dia”.

Na semana passada eu perdi uma grande amiga. Uma guerreira. Aquela que combateu o bom combate conservou a fé e eu só tenho que dizer: Obrigada por me ensinar a ser feliz e ter fé em toda e qualquer situação.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s