Linha dupla

Sonhei com você hoje.

Não mais como sonhava antigamente, mas vi você em meus sonhos essa noite.

Você estava diferente, seus olhos verdes não brilhavam mais quando encontraram os meus. Eu sorri e você não sorriu de volta, apenas manteve os olhos nas suas velhas botas pretas e sussurrou: Querida, é hora de ir embora.

Não teve lágrimas, não teve pedido desesperado para você ficar e invadir minha vida de novo com sua música, seu sorriso torto e seu jeito doido de encarar os dias. Dessa vez nenhum de nós se moveu, nossas mãos não se encontraram. Sem abraço, sem beijo de despedida, você foi desaparecendo aos poucos.

De longe via você desaparecer feito fumaça e fui me desprendendo de todas as linhas imaginárias que me ligavam a você. Cortei o laço que um dia você desenhou no meu braço esquerdo enquanto deitados no sofá da sua casa esperávamos o sol se pôr e disse que essa era nossa aliança. Cortei cada botão colorido que pregou em mim em todos os beijos que me dava para dizer bom dia, depois, cortei a linha vermelha que cruzava todo meu peito cada vez que você saia do banho cheirando meu shampoo e feito cachorro balançava a cabeça tentando me atingir com as gotas d’água dos seus cabelos molhados e eu ria feito estúpida quando você dizia: Desculpa baby, esqueci a toalha no banheiro.

Fui cortando linha por linha enquanto você continuava a se dissipar na minha frente. Até chegar a linha dupla que costurava nossos corações juntos, essa foi o corte mais difícil de eu decidir fazer. Minhas mãos tremiam, meus olhos embaçaram e a tesoura parecia pesada demais.

Não era apenas cortar a linha no meio. Era separar dois corações que por um tempo funcionaram bem e batiam no mesmo compasso, era apenas um corte rápido para tudo ser dividido novamente. Apenas um corte e tudo que me prendia e me apegava você acabaria para sempre.

Suas roupas não estão mais misturadas as minhas no armário, a toalha jogada no meio do quarto e os sapatos perdidos por toda a casa já não atrapalham mais meu caminho. Seu violão, sua gaita, sua guitarra e seus discos não ocupam mais toda a minha sala. Não mais domingos preguiçosos juntos, não mais beijos e sussurros de madrugada, não mais canecas de café compartilhadas em meio aos seus devaneios musicais.

E eu respirei fundo, cortei e acordei.

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