Oito meses

Você acredita que já fazem oito meses desde que nós nos vimos pela última vez? E tudo tem sido estranho desde então.

Agora você é como um desconhecido para mim, mas sabe, faz mais de 240 dias que não sei muito sobre você, mas ainda tem dias que sinto tanta saudade do que fomos que chega a doer.

Tem dias que acordo procurando você e seus pés entre os lençóis e me pego dizendo bom dia para as paredes. Porque você não está mais com seus braços envolvendo minha barriga e com seu nariz cheirando meus cabelos. Oito meses e ainda não me acostumei a dormir sozinha.

Sinto falta de você, às vezes. Falta do café que você me trazia em todas as madrugadas que passava trabalhando e das vezes que você desajeitadamente tentava me agradar fazendo o jantar. Lembra-se do dia que você conseguiu no mesmo dia quebrar meu copo predileto, queimar o arroz e esquecer a torta no forno? Estava tão brava com você que nem liguei quando você acabou pedindo pizza e no fim acabamos a noite rindo sentados no meu puff contando as luzes dos vizinhos que iam se apagando aos pouco nos dizendo boa noite.

Daí no dia seguinte você me acordou com panquecas e eu até hoje não acredito que foi você que fez, porque a cozinha esta tão impecavelmente limpa e você estava tão lindo recém-saído do banho com seus olhos azuis e os cabelos molhados me dizendo para não levantar da cama que você tinha uma surpresa para mim. Aquele dia eu desejei ter você do meu lado o resto da minha vida, você, seus olhos e a receita das suas panquecas.

Depois vesti sua camiseta dos Beatles e o seu chapéu e passamos o dia andando pelo centro de São Paulo, você achando graça do meu estilo londrino demais e eu brigando com você o tempo todo porque você insistia em carregar o violão. Mas daí, quando sentamos no banquinho do Anhangabaú e você cantou aquela música ridícula e fofa brincando com a cor dos meus cabelos vermelhos, eu fiquei feliz porque você o trouxe com você e deixou o fim da tarde perfeito. Porque meus dias com você começavam lindos e terminavam perfeitos.

Eu te amava, sabe. Tanto que nem sei colocar no papel. Era um amor bobo, às vezes meio infantil, que me deixava feito tola e com umas crises de ciúmes tão babacas. Eu aguentava tudo por você, suas manias, seus medos e seus vícios.

O dia que passei sentada ao seu lado naquele hospital, implorando para você acordar e dizer meu nome entre seu sorriso torto e o sotaque gaucho foi um dos piores dias da minha vida. Eu estava desesperada achando que nunca mais ouviria sua voz, mas você acordou, e me chamou.  Naquele momento o mundo voltou a girar ao contrário.

Nossa vida juntos era maluca. Meio doida, meio cheia de amor. Mas não foi o suficiente. Eu te amava tanto que me dei conta que no meio do caminho esqueci-me de me amar primeiro. Era tão bom quando juntos ficávamos em silencio sentados no seu sofá num domingo à tarde, você tragava seu cigarro enquanto compunha alguma canção e eu ainda vestindo suas roupas lia o jornal. Aí, você me dizia: Guria, você me dá paz.

Trouxe para sua vida meu sorriso, minhas sardas, meus cabelos vermelhos e um pouco de paz. Dei-te todo o amor que poderia dar, cuidei do teu coração como quem cuida de um jardim, mas nem todos os beijos que trocamos, todos os bilhetes pregados no espelho do meu banheiro. Nem todos os abraços no meio da madrugada, as pernas entrelaçadas enquanto dormíamos, os sussurros ao amanhecer foram suficientes para me prender a você para sempre.

Ouvi seu novo álbum e a canção que fez pra mim, e sabe, sei que toda essa saudade que lateja dentro de mim vai passar, um dia.

Desistir de você foi dilacerante, cada poro do meu corpo implorava para continuar grudados aos seus, mas nosso amor era insano demais para durar uma vida toda.

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