Algumas coisas sobre ele

  • Seu cabelo era mais bonito que o meu.

Bem cortado, limpo, brilhante e num castanho que eu dava meu rim para ter igual. Seus cachos faziam ondas em sua testa e no pescoço e deixavam seu rosto quadrado ainda mais perfeito. O aroma de menta de seu shampoo misturava ao seu perfume e podia passar horas colada nele apenas respirando “seu cheiro”.

  •  Ele me ouvia.

Não como meu amigos, meus pais e minhas irmãs. Calmo, sereno, tranquilo ele ouvia cada palavra que eu dizia como se estivesse saboreando cada uma delas como um pedacinho de chocolate que você coloca na sua boca e deixa derreter lentamente aproveitando todo o sabor que pode extrair dele. A expressão do seu rosto me incentivava a falar mais sobre mim, sobre de onde vim e sobre o que quero estar fazendo daqui dez anos, eu conseguia discernir enquanto falava se ele achara ridiculo ou impressionante. Sua expressão nunca mentia.

  •  Ele não era o cara mais bonito da cidade, mas era o mais encantador.

Quer clichê mais usado ao descrever sua primeira impressão de alguém do que dizer “Seus olhos brilhavam” “Eu não conseguia parar de olhar” “Ele tinha algo diferente” “Era seu sorriso torto” “Suas mãos grandes, talvez?” . Pois usarei todos eles! E mesmo que se em cada esquina daquela cidade eu encontrasse alguém que poderia ser um pouco mais bonito que ele, para mim ele era o efervescente, incandescente, lumininescente e todos os “escente” que você imaginar

  •  Sua voz era de matar.

Rouca, não tão baixa e com um sotaque português que me fazia perder meu lugar no espaço. Ele falava baixinho quando queria chamar minha atenção e fazia perguntas inteligentes, sinceras e carregadas de diversão e alguma ironia. Assistindo ao pôr do sol no Cais do Sudré ele me perguntou “Você acreditar que existe vida em Marte?”  e logo emendou “Você está prester a beijar seu primeiro marciano” e me calou com um beijo, o primeiro dos muitos que ele me roubou.

  •  Ele sabia como beber.

Ele bebia muito, mas com alguma moderação. Bebia despreocupado e alguma arrongância ao encher seu copo mesmo antes dele estar vazio, me ensinou a apreciar a quantidade certa de Ginja no copo e a temperatura ideal para deixar seu Moscatel refrescante como “o vento num dia de verão” sussurou no meu ouvido ao me estender o copo transpirando por causa do gelo.

  •  Ele me enxergava.

Não apenas como uma pedaço de carne pronto para ser comido. Ele conseguia me enxergar de um jeito assustador, sabia antes mesmo de eu pedir que eu estava sedenta por água, antes de eu reclamar que o sol estava queimado meus ombros ele já estava me oferecendo protetor porque ele me via além dos meus olhos. “Você se sente em casa aqui e ameniza sua saudade de casa” ele me disse um dia enquanto eu me espreguiçava depois de um cochilo “Você não precisa me dizer, eu posso te ver” saiu do quarto beijando minha testa.

  •  Ele não estava tão a fim de mim.

E assim como o sol se põe e como o verão termina dando espaço para o frio do outono, ele sabia que tinha dia e hora para terminar. Aquele tipo de história que não tem um “viveram felizes para sempre” no final, mas tinha uma série de momentos que iam ficar para sempre guardados e pronto para aquecer o coração assim como sol num dia quente de verão.

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