Por isso a gente terminou

Estou contando para todo mundo porque a gente acabou. Falar de você ainda é tão prazeroso que apenas reunir os amigos para contar todas as nossas histórias não era o suficiente, então, resolvi escrever como um pequeno texto contando toda a verdade.

A verdade? A pura verdade, é que porra, eu te amei demais.

No fundo do meu guarda-roupa encontrei cheia de poeira uma caixa de sapatos da Shoestock, depois de um crise de espirros – porque você já estava acostumado com minha rinite alérgica pronta para atacar em qualquer segundo – eu resolvi remover a tampa. Claro que dei aquela boa assoprada em todo aquele pó cheio de ácaros antes de lidar com a lembrança da nossa primeira grande briga. Até hoje não acredito que foi por causa de uma caixa de papelão.

Eu te avisei que era melhor você ir jogar peteca com seus amigos, mas você insistiu que ia ser divertido passar a tarde de sábado fazendo compras comigo e até disse que um dos seus amigos lhe falou que o café gratuito que a loja fornecia aos enfadonhos acompanhantes valia a espera. Você esperou.

Tão bonitinho, você ficou ali sentado me vendo experimentar todos os sapatos que achava legal. Ria quando eu tropeçava no saltos altos e até me ajudou a brigar com aquela velha doida que queria roubar as únicas sapatilhas amarelas neon que achei no meu número. Daí depois, te puxei pelo colarinho daquela camiseta do Rolling Stones que eu O_D_I_A_V_A para a seção de bolsas.

Ainda consegui ouvir o som da sua risada fazendo piada com aquela bolsa verde limão plastificada, você colocou ela nos ombros e desfilou fazendo a cena entre as araras arrancando olhares suspeitos das mulheres que não sabiam se escolhiam um modelo caramelo ou um marrom, o que para você era o mesmo. Eu estava ali no mesmo dilema de todas as mulheres do corredor quando você me assustou me abrançando e dizendo que esquecesse o marrom e apostasse no preto “Porque eu li numa revista enquanto esperava no dentista que preto é básico” você disse me beijando na orelha. Você cheirava a limão misturado com aquele cheiro de couro.

Por várias vezes naquele dia pensei que era sortuda de ter escolhido você. Mas, depois veio aquela fila infernal para pagar, aquela loira carregada de sacolas que resolveu que não calçava 40 mas 39 e pediu para trocar todos os pares de sapatos enquanto todo mundo só queria pagar a conta e ir tomar sorvete. Minha vez chegou, você me empurrou para o caixa e esperou pacientemente ele processar minhas compras, você lembra do cabelo bizarro do atendente? Aquele topete de gel asqueroso e ele era fanho!

E precisou me perguntar três vezes para eu entender se eu queria caixas para os sapatos e foi aí que a gente brigou. Eu disse sim, você disse não. Eu perguntei por que? Você disse que fazia volume e que meu apartamento já era pequeno para mim imagina com mais caixas. Eu me ofendi, achei que estava tirando sarro por eu viver num cubículo no centro de São Paulo e falei pro atendente que queria caixas e uma sacola para cada item que comprei.

Quase carreguei a fila inteira comigo até a porta, pedindo desculpas e empurrando as canelas de todos mundo com aquelas sacolas e caixas. Acho que atropelei uma criança, mas não lembro direito porque não olhei para trás com medo da possível ira materna que poderia vir atrás de mim. Fui direto para o carro, você emburrado me seguiu e depois de prender o cinto falou que não precisava fazer aquela cena toda e pediu desculpa.

Eu orgulhosa desde do meu primeiro dia de vida, te ignorei. Não ia te perdoar tão fácil, mas na verdade já tinha te perdoado desde que dei partida no carro. Quando cheguei no meu apartamento que você tinha razão quase não cabia eu deslizei as sacolas corredor adentro e joguei todas as caixas fora, mas guardei apenas uma. Queria manter na lembrança nossa primeira discussão.

Ainda naquele mesmo dia depois da gente ter lambido as caixas de comida chinesa do restaurante suspeito da XV de Novembro, quebrar nossos biscoitos da sorte e entupidos de comida cairmos no sono deitados de qualquer jeito de transversal na cama você tropeçou na caixa para chegar ao banheiro e voltou pra cama com a cara amassada e cheia de migalhas de biscoito. Eu ri.

Mesmo amassada nomeei aquela caixa branca e agora meio torta como nossa Pandora. Agora abrindo a tampa eu sorrio ao ver que escrevi de caneta preta meu poema favorito de Fernando Pessoa.

Eu não te amo mais, óbvio que não, mas ainda tem coisas que gostaria de falar. Você sabe que sempre desejei ser escritora, mas você nunca leu de verdade todos os livros que escrevo na minha cabeça e foi por isso que a gente terminou.

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