Foi por isso que a gente terminou – 2

http://www.youtube.com/watch?v=OQM5-Ks64is A palheta quebrada que me deu no dia que nos conhecemos é uma das coisas que guardei na caixa. Colei elas com durex, como alguém que cola os pedacinhos de um coração dilacerado e tomei todo o cuidado do mundo para preservar o que você tinha escrito nela com aquela canetinha vermelha que roubou do barman, com aquele garrancho torto você escreveu tudo junto “medá” tava de um lado e “umbeijo” do outro. Você tinha que ser músico, óbvio. Ainda posso sentir o cheiro de cigarro contrastando com o chiclete de menta que mascava e seu perfume, meio tímido passou por mim que estava sentada no balcão do bar e piscou indo fumar no frio de São Paulo – eu nunca entendi como você preferia enfrentar o vento gelado cortando seu rosto a esperar para fumar um cigarro. Tentei resistir, eu juro. Pedi um cigarro para o barman e fui atrás de você, fiquei ali batendo os pés na calçada judiada da Rua Augusta tentando não pensar nos meus ossos congelando lentamente, coloquei o cigarro na boca e pela primeira vez encarei seus olhos castanhos esverdeados. Rapidamente você tirou o esqueiro do bolso e na minha primeira tragada descobriu que fumar não era do meu costume, porque me afoguei em toda aquela fumaça e tossi até meus olhos encherem de lágrimas. Naquela hora pensei que tinha te perdido, confesso! Estava errada, você tirou o cigarro da minha boca e jogou no chão. Murmurando alguma coisa clichê como “fumar faz mal pra saúde, larga mão dessa porcaria” enquanto pisava nele chutando para se misturar as milhares de bitucas que entupiam a sarjeta. Não disse uma palavra mais apenas me pegou pela mão e me conduziu de volta ao calor do bar, sentado ao meu lado você nem se deu ao trabalho de perguntar o que queria beber, pediu ao barman dois Jack Daniels e deslizou o copo reluzente e sem gelo para mim. Sorri meio sem graça e levantei meu copo pedindo cheers. Você não me beijou aquela noite, eu não deixei. Não queria que roubasse um beijo carregado de álcool, definitivamente você não era o tipo de cara que valia uma noite só. Conversávamos sobre música, cinema, literartura,política mas não discutimos religão. Você tocou mais um monte de rock setentinha que amo e fechou a noite me dedicando Bob Dylan apenas com o olhar. Você me ganhou naquela hora. No fim da noite beijei a palheta que me deu e guardei no bolso prometendo a você que atenderia sua ligação, te abracei e fui embora. No dia seguinte você não ligou e o jeans com a palheta ainda no bolso foi mandado para a lavanderia. Demorou três longos dias para você ligar, eu quase nem atendi a ligação. Estava lidando com um dia caótico, um editor maluco e um deadline de duas horas. Mas você insistiu e me venceu pela curiosidade, não fiquei com seu número e quando ouvi sua voz dizendo alô eu sorri. Devagarinho você foi ganhando espaço na minha vida, fui deixando você entrar no meu dia, nos meus jantarzinhos improvisados, nas festas de aniversário dos amigos, nas noites em claro tentando fechar um texto para o jornal, nas roupas espalhadas pela casa até ganhar espaço no meu guarda-roupa e ao lado esquerdo da minha cama. Aos fins de semana nós abriamos o guia da Veja SP e num minha mãe mandou escolhíamos uma padaria qualquer em São Paulo que prometia um café da manhã íncrivel e lá sentávamos por horas com nossos jornais, revistas, livros e muitas xícaras de expresso duplo e pão na chapa. As notícias eram comentadas de tempos em tempos. “A situação tá feia para a presidenta” você dizia e eu respondia  “O novo filme do Woody Allen está sendo fortemente criticado pela imprensa” e daí você sorria e pedia mais um café porque não fazia ideia de quem era Woody, mas adorava Frank Capra tanto quanto eu. E o dia terminava com a gente no sofá esperando o delivery da comida chinesa. Perdidos em pequenas caixas de arroz de jasmim, frango com gengibre e biscoitos da sorte conversávamos muito sobre absolutamente tudo e nada. “Para de enrolar, quebra logo seu biscoito” eu disse esticando as pernas para apoiar meus pés na mesinha da frente. Com um aperto certeiro o biscoito virou uma farofa nas suas mãos “Beije quem você ama agora” ele disse e me beijou, seu hálito era uma mistura de cerveja, gengibre e doce do biscoito. “Não estava escrito isso” eu disse fazendo biquinho e tentando resgatar o pequeno papel de suas mãos. Pareciamos duas crianças pulando uma em cima da outra no sofá, até que por vencido você caiu no chão. Eu ganhei a luta tirando o papel de suas mãos. “A verdade te libertará” li em voz alta e o que poderia ser uma premonição ficou no ar. Juntei as caixas de papel engorduradas e as garrafas de cerveja na pia da cozinha enquanto você procurava algum filme na televisão. No dia seguinte você me acordou querendo me surpreender com um café na cama. Achei a atitude tão fofa que jurei para eu mesma que iria ignorar que o pão de queijo ainda estava gelado, os ovos mexidos estavam apimentados demais e eu não tomo leite. Você apareceu todo atrapalhado tentando abrir a porta e equilibrar a bandeja ao mesmo tempo. “Bom dia, dorminhoca” disse colocando tudo num canto da cama. Eu ainda mantinha a cabeça no travesseiro antes de pensar em responder algo: Por favor, é domingo e ainda são 9 da manhã. Mudei minha ideia quando devagarinho abri meus olhos e te vi sentado, sorrindo ainda vestindo suas calças de pijamas xadrez. “Bom dia, tiger”. Como uma blusa em promoção, um doce na vitrine da padaria você sempre estava lá. Eu não nunca te procurei e agora você era tudo o que queria. E quer saber? O negócio de ter o que seu coração deseja é que seu coração não sabe o que deseja até aparecer. E foi por isso que a gente terminou.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s