Por decreto

Ainda penso se a gente continuaria junto por muito tempo ou se nossa relação estava fadada ao fracasso.

Talvez você já não estaria ocupando meu sofá faz tempo. Talvez suas roupas já não estariam mais misturadas nas minhas e as tarde de domingos seriam como são para mim ultimamente: vazias!

Imagino se o que a gente sentia sobreviveria a distância que separou a gente por um tempo. Não quis pagar pra ver, abri mão antes.

Nossa música me acordou hoje, uma trollagem made in Spotify. Por um momento ouvi seus passos no corredor, me remexi na cama afastando os lençóis pensando se voltei para o quarto do 43B, senti até o cheio do café vindo da pequena cozinha e seus resmungos de reclamação porque estava fazendo tudo errado.

Mantive os olhos fechados por um tempo esperando pra ver se você abria a porta do quarto para deitar ao meu lado e me acordar beijando minha testa. Você não veio.

Nosso fim já estava decretado.

 

 

Mantenha-se calado

Não precisa dizer nada, eu já exatamente o que vai me dizer.

Sei que vai dizer que a culpa é sua, que sua covardia se fez mais forte mais uma vez.

Não quero ouvir o que tem para dizer.

Prefiro guardar o som da sua voz me dizendo o quanto estava linda naquela primeira noite que nos vimos.

Quero manter na memória aquela vez que você provou que me conhecia tão bem quando ao voltar do banheiro já tinha feito meu pedido, pq sabia exatamente o que eu iria escolher e nem esqueceu o molho extra.

Não, não diga nada!

Deixe eu ficar aqui sentada no sofá encarando o dia cinza lá fora enquanto imagino como poderíamos ganhar o mundo juntos. Como nossos planos se encaixam tão perfeitamente e como a gente junto funciona.

Me deixa bebericar mais uma caneca de café fumegante sentindo a dor da língua queimada enquanto meus dedos trêmulos lutam para enxugar as lágrimas.

Saber o que está para acontecer lateja mais.

Dói menos apenas imaginar o som da sua voz dizendo que tudo foi um grande erro.

Mantenha-se calado e não deixe me ir.

 

 

Sincronia

Apenas falar não era o bastante.

Tinha que ter mãos e braços. Pernas e abraços.

Tinha que ter olho no olho.

Verdades ditas.

Beijo de despedida.

(I don’t want to move away).

Hey, okay?

Seus dramas não são mais meus, seus projetos não me pertencem mais, seus sonhos não são mais os meus. Seu piano não toca mais nossa música, o cheiro do seu cigarro não está mais impregnado em minhas roupas. Meu shampoo dura quase um mês, meus planos agora são apenas para um. Eu, e só eu.

Errei, quebrei o silêncio que prometemos. Meu mundo estava tão redondo sem você, tudo girava na órbita perfeita, até eu apertar o send no meu Whatsapp.

Dói, sabe?

Dói saber que outra pessoa vive onde nós deveríamos viver. Dói saber que todas as canecas, pratos e copos que comprei para sua casa agora estão sendo usados por outra. Dói saber que ela costurou o rasgo da almofada da sua sala, que ela aprendeu como você gosta do café e que agora ela também sabe a sua receita de panquecas secreta.

Meu coração retorce em dor quando vejo que agora todas as canções que tu escreve são para ela.  Fico feliz porque sei que você está feliz, porque ela te faz tão bem quanto eu fiz. Mas dentro de mim, dói.

Dói saber que ela carrega no ventre uma parte de você, um pedaço que um dia perdi.

Dói sabe, dói.

O homem que podia tratar o coração dela

É apenas o moço que a encontre num dia ensolarado, nublado, chuvoso, com névoa e não  diga que ela está bonita, porque ela sabe que não está. É o garoto que acerte a cor dos olhos dela numa brincadeira qualquer.

É aquele que pode estar na fila do pão, ser amigo de algum amigo, ou a gerente do banco, ou a colega de faculdade, aquele que seja as aspas, as reticências, o parágrafo, o travessão. Que seja tudo, mas que não seja nada.

O moço que não diz que ela está linda e magra na TPM, porque ela sabe que ele mentiu. Ela está sempre gorda, um pouco feia, chorosa e raivosa. Aquele que garanta a ela muitos tantos, beijos, toques, olhares, filmes de fim de tarde, cheiros de perfume novo, dias de dormir de conchinha, minutos de ligações intermináveis.

O rapaz que dorme e briga com ela. Aquele homem de barba ruiva que ela tem orgulho de mostrar pro mundo, porque ele a coloca para cima,  fala umas verdades, faz pensar na vida, faz se sentir uma pessoa melhor. O garoto que traz café na cama, dá um beijo de surpresa, vê ela sem maquiagem e enxerga muito, mas muito, além do que se vê.

O menino que ela queira como pai dos seus filhos e que todos eles tenham os olhos, a boca e o nariz dele. O tipo de cara que sabe sair da rotina e se encante com algumas aventuras de vez em quando.

Ele não tem nome, não tem idade, não tem país de origem. Ele não existe mais.