Levantou poeira. Po-ei-ra!

Chegou como um vento norte num fim do dia de verão.

Daqueles que chega trazendo chuva, relâmpagos, trovões e alguma destruição.

Não que esperasse você para gente fazer um auê qualquer. Não que contasse com você correndo para os meus braços.

Nada disso!

Você chegou levantando poeira. Quebrando muralhas.

Colocou o sorriso na minha face novamente, o frio na barriga apareceu e não é que as borboletas do meu estômago ainda existem?

Seja como for.

Abalou as estruturas.

 

 

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Sincronia

Apenas falar não era o bastante.

Tinha que ter mãos e braços. Pernas e abraços.

Tinha que ter olho no olho.

Verdades ditas.

Beijo de despedida.

(I don’t want to move away).

Foi por isso que a gente terminou – 2

http://www.youtube.com/watch?v=OQM5-Ks64is A palheta quebrada que me deu no dia que nos conhecemos é uma das coisas que guardei na caixa. Colei elas com durex, como alguém que cola os pedacinhos de um coração dilacerado e tomei todo o cuidado do mundo para preservar o que você tinha escrito nela com aquela canetinha vermelha que roubou do barman, com aquele garrancho torto você escreveu tudo junto “medá” tava de um lado e “umbeijo” do outro. Você tinha que ser músico, óbvio. Ainda posso sentir o cheiro de cigarro contrastando com o chiclete de menta que mascava e seu perfume, meio tímido passou por mim que estava sentada no balcão do bar e piscou indo fumar no frio de São Paulo – eu nunca entendi como você preferia enfrentar o vento gelado cortando seu rosto a esperar para fumar um cigarro. Tentei resistir, eu juro. Pedi um cigarro para o barman e fui atrás de você, fiquei ali batendo os pés na calçada judiada da Rua Augusta tentando não pensar nos meus ossos congelando lentamente, coloquei o cigarro na boca e pela primeira vez encarei seus olhos castanhos esverdeados. Rapidamente você tirou o esqueiro do bolso e na minha primeira tragada descobriu que fumar não era do meu costume, porque me afoguei em toda aquela fumaça e tossi até meus olhos encherem de lágrimas. Naquela hora pensei que tinha te perdido, confesso! Estava errada, você tirou o cigarro da minha boca e jogou no chão. Murmurando alguma coisa clichê como “fumar faz mal pra saúde, larga mão dessa porcaria” enquanto pisava nele chutando para se misturar as milhares de bitucas que entupiam a sarjeta. Não disse uma palavra mais apenas me pegou pela mão e me conduziu de volta ao calor do bar, sentado ao meu lado você nem se deu ao trabalho de perguntar o que queria beber, pediu ao barman dois Jack Daniels e deslizou o copo reluzente e sem gelo para mim. Sorri meio sem graça e levantei meu copo pedindo cheers. Você não me beijou aquela noite, eu não deixei. Não queria que roubasse um beijo carregado de álcool, definitivamente você não era o tipo de cara que valia uma noite só. Conversávamos sobre música, cinema, literartura,política mas não discutimos religão. Você tocou mais um monte de rock setentinha que amo e fechou a noite me dedicando Bob Dylan apenas com o olhar. Você me ganhou naquela hora. No fim da noite beijei a palheta que me deu e guardei no bolso prometendo a você que atenderia sua ligação, te abracei e fui embora. No dia seguinte você não ligou e o jeans com a palheta ainda no bolso foi mandado para a lavanderia. Demorou três longos dias para você ligar, eu quase nem atendi a ligação. Estava lidando com um dia caótico, um editor maluco e um deadline de duas horas. Mas você insistiu e me venceu pela curiosidade, não fiquei com seu número e quando ouvi sua voz dizendo alô eu sorri. Devagarinho você foi ganhando espaço na minha vida, fui deixando você entrar no meu dia, nos meus jantarzinhos improvisados, nas festas de aniversário dos amigos, nas noites em claro tentando fechar um texto para o jornal, nas roupas espalhadas pela casa até ganhar espaço no meu guarda-roupa e ao lado esquerdo da minha cama. Aos fins de semana nós abriamos o guia da Veja SP e num minha mãe mandou escolhíamos uma padaria qualquer em São Paulo que prometia um café da manhã íncrivel e lá sentávamos por horas com nossos jornais, revistas, livros e muitas xícaras de expresso duplo e pão na chapa. As notícias eram comentadas de tempos em tempos. “A situação tá feia para a presidenta” você dizia e eu respondia  “O novo filme do Woody Allen está sendo fortemente criticado pela imprensa” e daí você sorria e pedia mais um café porque não fazia ideia de quem era Woody, mas adorava Frank Capra tanto quanto eu. E o dia terminava com a gente no sofá esperando o delivery da comida chinesa. Perdidos em pequenas caixas de arroz de jasmim, frango com gengibre e biscoitos da sorte conversávamos muito sobre absolutamente tudo e nada. “Para de enrolar, quebra logo seu biscoito” eu disse esticando as pernas para apoiar meus pés na mesinha da frente. Com um aperto certeiro o biscoito virou uma farofa nas suas mãos “Beije quem você ama agora” ele disse e me beijou, seu hálito era uma mistura de cerveja, gengibre e doce do biscoito. “Não estava escrito isso” eu disse fazendo biquinho e tentando resgatar o pequeno papel de suas mãos. Pareciamos duas crianças pulando uma em cima da outra no sofá, até que por vencido você caiu no chão. Eu ganhei a luta tirando o papel de suas mãos. “A verdade te libertará” li em voz alta e o que poderia ser uma premonição ficou no ar. Juntei as caixas de papel engorduradas e as garrafas de cerveja na pia da cozinha enquanto você procurava algum filme na televisão. No dia seguinte você me acordou querendo me surpreender com um café na cama. Achei a atitude tão fofa que jurei para eu mesma que iria ignorar que o pão de queijo ainda estava gelado, os ovos mexidos estavam apimentados demais e eu não tomo leite. Você apareceu todo atrapalhado tentando abrir a porta e equilibrar a bandeja ao mesmo tempo. “Bom dia, dorminhoca” disse colocando tudo num canto da cama. Eu ainda mantinha a cabeça no travesseiro antes de pensar em responder algo: Por favor, é domingo e ainda são 9 da manhã. Mudei minha ideia quando devagarinho abri meus olhos e te vi sentado, sorrindo ainda vestindo suas calças de pijamas xadrez. “Bom dia, tiger”. Como uma blusa em promoção, um doce na vitrine da padaria você sempre estava lá. Eu não nunca te procurei e agora você era tudo o que queria. E quer saber? O negócio de ter o que seu coração deseja é que seu coração não sabe o que deseja até aparecer. E foi por isso que a gente terminou.

E se não tivesse o fim?

Por um segundo você já sentou no sofá com um copo meio cheio de Jack Daniels e pensou como teria sido se não tivesse saído por aquela porta naquela manhã?

Imagino como teria sido se eu não tivesse feito o que fiz. Tento pensar que não precisariamos ter aquela longa conversa sentados no chão do meu antigo apartamento, eu encostada no armário e você de costas para a parede me encarando com seus olhos escuros e dizendo que não sabia como lidar.

Você levantou, me puxou para seus braços e me beijou.

Um beijo insaciável, dominante, o beijo que selaria o fim.

Tentei me explicar, falar que era para você ficar e você me calou com outro beijo. Você estava machucado, eu sei. Eu estava perdida, não sabia. Queria te segurar na minha cama, te colocar em lugar de destaque para sempre na minha vida e você disse de novo que não sabia lidar.

Me colocou sentada na cama ao seu lado, pernas entrelaçadas e minha cabeça em seu ombro. Pedi para você não ir embora e baixinho você disse “Não vou agora, mas amanhã depois do café eu vou abrir aquela porta e não vou voltar”. Chorei e pedi para aquela noite durar a eternidade.

Lembro da luz prateada da lua iluminando seu rosto, eu nunca tinha reparado na lua refletida na minha janela. Talvez ela sempre estivesse lá eu que nunca percebi. E conversamos, nos beijamos e você me amou.

Adormeci nos seu braços ainda pedindo para a noite não acabar. Acordei com o cheiro de café invadindo o quarto e a voz doce da Yael Naim cantando Yashanti soando pelas caixas de som da sala, você apareceu carregando minha caneca predileta, sentou na beira da cama e sem dizer nada chorou.

Ficamos em silêncio por tanto tempo que meu café gelou. “Menina, nossa história não tem final feliz. Mas tem espaço para sempre em minha lembrança” e assim tu beijou minha testa e a porta se fechou.

Você já imaginou se a gente tivesse dado certo?

Eu já.

Nós vamos nos lembrar deles

“They shall grow not old, as we that are left grow old:

Age shall not weary them, nor the years condemn.

At the going down of the sun and in the morning,

We will remember them.”

Laurence Binyon

A Inglaterra está tomada por flores vermelhas. No primeiro ano que morei aqui achei engraçado ver todos os britânicos carregando aquilo no peito, abarrotando todos os lugares com enormes guirlandas de flores – conhecidas como “poppys” – que para mim eram apenas flores vermelhas. Achei bonitinho, até carreguei uma.

Na época não me interessei muito em descobrir o que aquilo significava e assim foi até ontem. Enquanto andava pelas ruas da Skipton e vi um senhor de idade com sua bengala enfrentando uma chuva fina e gelada, em suas mãos uma flor de papel vermelha já meio rasgada. Enquanto tomava minha caneca de chá observava pela enorme janela quando uma moça entregou a ele uma nova e vermelha flor. Gentilmente ele agradeceu a moça e desjeitadamente pendurou aquela flor no peito e sorriu.

Uma compaixão enorme tomou conta de mim naquele instante e eu me dei conta que aquilo não era apenas flores vermelhas e fui atrás da história. Todo ano em novembro os britânicos lembram e agradecem a todos os soldados mortos durante a grande guerra mundial. Considerados heróis pelos ingleses, todos esses homens morreram tentando proteger a Inglaterra durante toda a guerra.

Envolvida em muitas outras guerras e batalhas, inúmeros memoriais relembram a vida daqueles que se doaram pela nação durante todo esse tempo. Em 2007 as Forças Armadas Britânicas inaugurou nos jardins do National Memorial Arboretum, em Sttaffordshire, um enorme memorial onde em toda primavera eles atualizam com o nome de pessoas que morreram protegendo a nação britânica.

Hoje às 11 horas da manhã a Inglaterra parou por um minuto para relembrar daqueles que doaram suas vidas em favor do seu país. Adotada pelos britânicos, eu fui uma dessas milhões de pessoas que por um instante parou tudo para homenagear aqueles que morreram por amar sua pátria.

Isso me fez pensar em como nós brasileiros não demos valor ao nosso passado. Ok, não temos um passado brilhante e condecorado como muitos outros países, mas temos centenas (porque não milhões) de soldados que doaram suas vidas em favor do Brasil.

E daí pergunto? Vocês sabem quem são eles? Quantos são? O que fizeram? Eu não sei, confesso. E hoje me senti um pouco envergonhada com isso porque temos um passado que deve ser honrado e com exceção do tradicional desfile de 15 de Novembro, não temos quase nada!

Lotamos as ruas para celebrar os milhões de brasileiros gays. Umas multidões de pessoas Marcham para Cristo e quantos aos que morreram servindo sua pátria? Quando eles serão lembrados?

Não quero parecer dramática ou hiper saudosista, talvez esteja sendo. Só estou tentando despertar um sentimento em você que senti quando vi aquele senhor de idade carregar com orgulho sua “poppy” no peito e entendi que honrar o passado é fundamental para entender o presente e sonhar com o futuro promissor.