Levantou poeira. Po-ei-ra!

Chegou como um vento norte num fim do dia de verão.

Daqueles que chega trazendo chuva, relâmpagos, trovões e alguma destruição.

Não que esperasse você para gente fazer um auê qualquer. Não que contasse com você correndo para os meus braços.

Nada disso!

Você chegou levantando poeira. Quebrando muralhas.

Colocou o sorriso na minha face novamente, o frio na barriga apareceu e não é que as borboletas do meu estômago ainda existem?

Seja como for.

Abalou as estruturas.

 

 

Fora da cidade

Eu nasci numa cidade tranquila do interior de São Paulo, passei boa parte da minha vida desejando tentar a vida na cidade grande. Eu fui lá e fiz.

Depois de quase cinco anos desbravando a selva de pedras também conhecida por Sampa, decidi que tava na hora de mudar tudo e ir atrás de outro sonho, morar em Londres. Eu fui lá e fiz.

Sempre achei cidades grandes a melhor coisa do mundo, tinha vontade de conhecer tudo e todos. É como festinha de criança ou ceia de Natal. Há tanta coisa para se comer que a gente acaba nem comendo direito, fica por horas encarando cada doce e não se decide. A vida na cidade grande muitas vezes pode ser desse jeito. Você quer viver tudo e vive nada.

Um ano desbravando cada rua de Londres entendi que queria continuar na Inglaterra , mas queria tentar algo diferente, quis resgatar o tempo que a vida era menos complicada. Aonde o tomate vinha do pomar, a paisagem contém cavalos e vacas, a internet é limitada. Troquei o salto alto pelas botas de cowboy e vim descobrir como se viver num tipo vilarejo do interior da Inglaterra.

E a aventura começou apenas dois dias atrás e acreditem o clima rural já trouxe alguma mudança. Sabe a primeira coisa que descobri? Que o lugar do mundo onde há mais solidão é entre as pessoas de uma cidade grande e meu grande medo de se sentir entediada em viver numa vilazinha de nem 2500 habitantes desapareceu junto com o vento frio que bate em minha janela o dia todo.

Aqui todo mundo é feliz porque vive um dia de cada vez. Parar no meio do caminho para observar um rebanho de ovelhas passarem faz parte do dia, tirar breaks de 30 minutos no meio do dia para conversa com pessoas que nunca viu é prazer, sorrir e dizer bom dia é dever.

Aqui as coisas são como são e não como  achamos que devem ser.

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Out of town

I was born in a quiet town in São Paulo, I spent much of my life wanting to try life in the big city. I went there and I did.

After nearly five years braving the jungle of stones also called Sampa I was decided that was the time to change everything and go after the dream of living in London. I went there and I did.

I always thought big cities the best thing in the world, I always wanted to know everything and everyone. It’s like a little kids party or Christmas dinner. There is so much to eat that you end up not eating right, sits for hours staring at each sweet and not decide. Life in the big city can often be that way. You want to live everything and lives nothing.

A year braving every street of London understood that I wanted to continue in England, but wanted to try something different, wanted to redeem the time when life was less complicated. Where the tomatoes came from the orchard, the landscape contains horses and cows, the internet is limited. And I swapped high heels for cowboy boots and come discover how to live in a village of England.

And the adventure began just two days ago and believe rural weather has brought some change. Do you know the first thing I discovered? That part of the world where there is more loneliness among people is in a great city and my great fear of feeling bored living in a small village of 2500 inhabitants disappeared along with the cold wind that hits my window all day.

Here everyone is happy because them lives one day at a time. Stop along the way to watch a flock of sheep pass part of the day is part of the day, take 30 minute breaks in the middle of the day to talk with people who never saw it a pleased, smile and say good morning is a must.

Here things are as they are and not as we think it should be.

Em um paraíso sem dia e sem noite

Aos treze pintou os cabelos de loiro, aos quinze já tinha os rascunhos dos seus primeiros textos.

Aos dezoito resolveu trocar o Direito pelo Jornalismo.

Aos vinte e quatro cortou o estômago ao meio e quebrou seu coração em pedaços pela primeira vez.

Aos vinte e cinco foi morar sozinha.

Aos vinte e oito trabalhava com livros, tinha um blog badalado e teve seu coração dilacerado pela segunda vez.

Aos trinta anos largou tudo e foi morar sozinha no exterior.

Ainda pequena sabia o que queria.

Foi lá e fez.

Prossegue, ainda sozinha.

E mesmo não ousando grandes previsões futurísticas, odiava o escuro que se encontrava.

Hey, okay?

Seus dramas não são mais meus, seus projetos não me pertencem mais, seus sonhos não são mais os meus. Seu piano não toca mais nossa música, o cheiro do seu cigarro não está mais impregnado em minhas roupas. Meu shampoo dura quase um mês, meus planos agora são apenas para um. Eu, e só eu.

Errei, quebrei o silêncio que prometemos. Meu mundo estava tão redondo sem você, tudo girava na órbita perfeita, até eu apertar o send no meu Whatsapp.

Dói, sabe?

Dói saber que outra pessoa vive onde nós deveríamos viver. Dói saber que todas as canecas, pratos e copos que comprei para sua casa agora estão sendo usados por outra. Dói saber que ela costurou o rasgo da almofada da sua sala, que ela aprendeu como você gosta do café e que agora ela também sabe a sua receita de panquecas secreta.

Meu coração retorce em dor quando vejo que agora todas as canções que tu escreve são para ela.  Fico feliz porque sei que você está feliz, porque ela te faz tão bem quanto eu fiz. Mas dentro de mim, dói.

Dói saber que ela carrega no ventre uma parte de você, um pedaço que um dia perdi.

Dói sabe, dói.

Sabe, rapaz.

Ei, moço. É que eu queria dizer que eu gosto da sua barba, sabe. Na verdade, eu gosto de absolutamente tudo em você: barba, cabelo, mãos e braços, pernas e abraços.

Descobri que você gosta de xadrez e isso é um problema pra mim. Tenho uma queda gigante por homens que usam xadrez.  E hoje quando você apareceu de manhã radiando lindeza naquela camisa, eu decidi arriscar.

Ainda não sei se te chamei para tomar um café porque te acho irresistível ou se essa vontade de ir adiante é genuína. Você não é do tipo de homem que eu chamaria pra tomar apenas um pint de Guinness em um pub qualquer. Não!

Acho que com você eu sentaria com milhares de canecas de chai latte e ficaria olhando pro seu rosto. Com cara de boba.  De mãos dadas e um beijo na trave. E ia querer fazer você corar com um beijo arrancado de surpresa pra confundir a sua respiração e fazer o seu coração acelerar.

Ninguém entende a minha razão, e nem eu entendo muito bem porque fico gaguejando sempre que você me dá bom dia. Acho que é porque tu és mais ou menos o tipo de moço que me faria contar pro meu pai e minha mãe que eu conheci um fulano de barba e que vou casar com ele.

Você é o tipo de garoto em quem eu colocaria um anel de biscoito no dedo e mostraria pros meus amigos. E acho que você continuaria rindo e me dizendo que a gente é velho demais pra isso tudo, e que amor igual àqueles dos livros é só quando a gente morrer. Mas você é de fazer o tempo passar rápido, porque coisas boas fazem o tempo voar.

Sabe rapaz, você é o tipo de moço que é o meu tipo. De estar aqui. De estar comigo.