Dois prá la e dois pra cá

Sabe como gosto do café forte e quente. Sabe que fui eu que tomei a iniciativa.

Sabe que fui eu escrevi antes, liguei primeiro só para ter a voz dele só para mim.

Ele sabe que ignorei todos meus os machucados que meu ex deixou em mim.

Ele entendeu meu silêncio e fui eu que disse sim.

Ele sabe o que foi ruim, o que foi bom. Ele sabe que foi para ele que escrevi coisas lindas, ele sabe que eu sei que ele não entendeu um terço do sentimento que tentei colocar em tudo o que escrevi. Ele sabe que fui ousada demais.

Ele sabe que amo o Corinthians, que tenho medo de barata e que odeio o trânsito de São Paulo. Sabe que minha banda favorita é o Beatles, que já bati o carro duas vezes, que odeio chuva e que amo sorvete de morango.

Ele sabia que deveria ter me comprado flores e segurado minha mão. Que deveria ter me dados todas suas horas livres e me chamado para todas as festas porque era com ele que eu queria dançar.

O nome dele é Pedrol. Ele sabe tudo sobre mim.

Sabe até  que agora é tarde demais.

Advertisements

Oito meses

Você acredita que já fazem oito meses desde que nós nos vimos pela última vez? E tudo tem sido estranho desde então.

Agora você é como um desconhecido para mim, mas sabe, faz mais de 240 dias que não sei muito sobre você, mas ainda tem dias que sinto tanta saudade do que fomos que chega a doer.

Tem dias que acordo procurando você e seus pés entre os lençóis e me pego dizendo bom dia para as paredes. Porque você não está mais com seus braços envolvendo minha barriga e com seu nariz cheirando meus cabelos. Oito meses e ainda não me acostumei a dormir sozinha.

Sinto falta de você, às vezes. Falta do café que você me trazia em todas as madrugadas que passava trabalhando e das vezes que você desajeitadamente tentava me agradar fazendo o jantar. Lembra-se do dia que você conseguiu no mesmo dia quebrar meu copo predileto, queimar o arroz e esquecer a torta no forno? Estava tão brava com você que nem liguei quando você acabou pedindo pizza e no fim acabamos a noite rindo sentados no meu puff contando as luzes dos vizinhos que iam se apagando aos pouco nos dizendo boa noite.

Daí no dia seguinte você me acordou com panquecas e eu até hoje não acredito que foi você que fez, porque a cozinha esta tão impecavelmente limpa e você estava tão lindo recém-saído do banho com seus olhos azuis e os cabelos molhados me dizendo para não levantar da cama que você tinha uma surpresa para mim. Aquele dia eu desejei ter você do meu lado o resto da minha vida, você, seus olhos e a receita das suas panquecas.

Depois vesti sua camiseta dos Beatles e o seu chapéu e passamos o dia andando pelo centro de São Paulo, você achando graça do meu estilo londrino demais e eu brigando com você o tempo todo porque você insistia em carregar o violão. Mas daí, quando sentamos no banquinho do Anhangabaú e você cantou aquela música ridícula e fofa brincando com a cor dos meus cabelos vermelhos, eu fiquei feliz porque você o trouxe com você e deixou o fim da tarde perfeito. Porque meus dias com você começavam lindos e terminavam perfeitos.

Eu te amava, sabe. Tanto que nem sei colocar no papel. Era um amor bobo, às vezes meio infantil, que me deixava feito tola e com umas crises de ciúmes tão babacas. Eu aguentava tudo por você, suas manias, seus medos e seus vícios.

O dia que passei sentada ao seu lado naquele hospital, implorando para você acordar e dizer meu nome entre seu sorriso torto e o sotaque gaucho foi um dos piores dias da minha vida. Eu estava desesperada achando que nunca mais ouviria sua voz, mas você acordou, e me chamou.  Naquele momento o mundo voltou a girar ao contrário.

Nossa vida juntos era maluca. Meio doida, meio cheia de amor. Mas não foi o suficiente. Eu te amava tanto que me dei conta que no meio do caminho esqueci-me de me amar primeiro. Era tão bom quando juntos ficávamos em silencio sentados no seu sofá num domingo à tarde, você tragava seu cigarro enquanto compunha alguma canção e eu ainda vestindo suas roupas lia o jornal. Aí, você me dizia: Guria, você me dá paz.

Trouxe para sua vida meu sorriso, minhas sardas, meus cabelos vermelhos e um pouco de paz. Dei-te todo o amor que poderia dar, cuidei do teu coração como quem cuida de um jardim, mas nem todos os beijos que trocamos, todos os bilhetes pregados no espelho do meu banheiro. Nem todos os abraços no meio da madrugada, as pernas entrelaçadas enquanto dormíamos, os sussurros ao amanhecer foram suficientes para me prender a você para sempre.

Ouvi seu novo álbum e a canção que fez pra mim, e sabe, sei que toda essa saudade que lateja dentro de mim vai passar, um dia.

Desistir de você foi dilacerante, cada poro do meu corpo implorava para continuar grudados aos seus, mas nosso amor era insano demais para durar uma vida toda.

Diálogos

Acomodaram-se na cama. Ela debaixo do edredom, ele por cima porque sentia muito calor. Ela de shorts e meia, ele de calças e sem camiseta. O aquecedor ligado fazia com que eles se esquecem do frio e vento cortando do lado de fora da janela.

– Como foi seu dia hoje?

– Cansativo, mas correu tudo bem. E sobre o seu?

– Ah, coisas normais, sabe? Trabalhei, sai para correr, tomei litros de café. Nada especial.

– Eu não sabia que você corria. Eu não posso mais correr por causa de uma lesão no joelho, fico tão irritado com isso! Mas, sinceramente, prefiro esportes que tenham bola como o centro de tudo.

– Futebol?

– Não, rugby.

– Oh, acho que você precisa saber duas coisas sobre mim: Eu não sou o tipo de pessoa que possui muita coordenação, sabe. Por exemplo, eu não posso correr e chutar uma bola ao mesmo tempo, a probabilidade de eu me esborrachar no chão e imensa. Outra coisa é que também não tenho senso algum de direção e não sei lidar com mapas. Se você me mandar para o sul, com certeza, eu vou parar em algum lugar ao norte.

Ele riu. Gostava do jeito que ela falava e da forma como expressava quem realmente era.

– Para isso existe o Google Maps.

– Sim, ele está ali entre os aplicativos do meu Iphone. Sempre que ele me diz “ande 500 metros ao sul” eu já estou no oeste. Bom, essa sou eu.

– Você é engraçada.

– Muito obrigada. A verdade é que não nasci no planeta Terra, eu vim de Marte.

– Marte? Pensei que as pessoas lá fossem verdes.

– Nem todas. Veja minha cor, sou mais branca que a neve porque uso um efeito especial.

– O que as pessoas de Marte bebem?

– Eles gostam de cerveja, mas preferem whisky.

– Eu também prefiro whisky.

Ela se ajeitou na cama. Estava cansada, o dia tinha sido mais longo do que esperava e precisava dormir.

– Eu preciso tomar banho, mas você não me deixa sair da cama. Está tão confortável aqui.

– Fica mais um pouco.

– Você podia me incentivar dizendo: Sai dessa cama e vai tomar banho agora!

– Tá bom, levanta logo e vai tomar banho. Eu prometo não olhar enquanto você entra no chuveiro.

Espreguiçando ela chutou os edredons para fora da cama.

– Você pode fechar os olhos, vou tirar minha roupa para tomar banho.

– Fechar os olhos? Ok, posso fazer isso. Mas somente dessa vez. Pronto, olhos fechados e pode ir para o chuveiro.

– Não vale espiar, tá.

– Ah, mas ia ser tão bom poder te espiar. Mas não vou fazer isso, mesmo bem tentado a fazer. Talvez, eu possa apenas tentar ver apenas com meu olho direito.

Ela nem se importou com a ultima sentença, já estava no chuveiro e lá ficou mais do que meia hora. Quando voltou  enrolada na toalha, logo perguntou.

– Voltei. Me diz, gostou do que viu?

– Mais do que possa imaginar.

Apressada vestiu os pijamas, escovou os dentes e já na cama novamente disse:

– Vamos dormir agora?

– Sim, vamos. Posso te dar um beijo de boa noite?

– Claro.

E ele selecionou o emoticon do beijo, rapidamente digitou “Durma bem” e seus dedos clicaram: Send.

Essa não é uma carta de amor

Sabe, estou pensando em escrever uma carta para você faz algum tempo. Não uma carta de amor melosa, daquelas que a gente costumava escrever quando se amou pela primeira vez.

Nosso amor não deu certo, eu sei. Mas, eu sinto sua falta. Saudade do que a gente viveu, compartilhou e não sobreviveu. Às vezes me pego no fitando o teto branco do meu quarto por horas tentando exprimir do fundo da minha memória todos os cheiros, todas as historias e todos os dias lindos (e os não tão lindos) que vivemos.

Lembro-me de você naquele sábado de manhã, o sol brilhava pela janela e você empurrava o gato para o chão enquanto tentava sair da cama, eu me remexi do outro lado e você disse: Amo você mais do que Beatles. Acho que você não viu, mas eu sorri entre os travesseiros porque sei que você amava mais eles do que eu, mas me desmanchei por dentro.

E foi percorrendo minha memória que os acordes do Bob Dylan me levaram para aquela segunda feira que você me fez ligar para o trabalho e dizer que estava doente e não poderia trabalhar. Me senti culpada demais e você apareceu com aquele café quente na cama sorrindo para mim com seu sorriso torto que amei desde o primeiro dia que vi. Passamos aquele dia em casa, entre beijos e cochilos, milhares de canecas de café, todos os filmes clássicos do Netflix e a pipoca queimada, dividimos seu sofá e sussurrei no seu ouvido que poderia fazer isso pelo resto da minha vida.

Você me fez uma pessoa melhor, acredite. Nem todos os defeitos do mundo poderia mudar isso. Nem aquela crise idiota de ciúme que tive depois de um show seu, você lembra-se disso? Foi tão estúpido eu ali de palhaça seguindo seus passos, pensando que você estava azarando a menininha que gritou seu nome durante toda a apresentação, enquanto você tava mesmo era preparando a melhor surpresa que eu poderia ter. Não esperava as flores, o jantar, o pedido e muito menos o anel.

Eu feito panaca deveria ter dito sim, mas perguntei: Onde você conseguiu isso? Sorri feito boba quando respondeu: Essa deveria ser a parte que você diz Sim. E eu disse.

Eu achei que pudesse, juro. Mas depois disso nosso amor desaguou.

E não tem mais anel e nem pedido. As flores murcharam, o vinho estragou e o jantar gelou.

You know, I’m thinking of writing a letter to you for some time . Not a sappy love letter , from those we used to write when you loved the first time.

Our love did not work out , I know . But , I miss you . Missing that what we lived , sharing and did not survive . Sometimes I find myself staring at the white ceiling of my room for hours trying to express the depths of my memory all the smells , all the stories and everyday beautiful (and not so beautiful ) we live.

I remember you that Saturday morning , the sun shone through the window and you pushed the cat to the ground while trying to get out of bed, I fumbled on the other side and you said I love you more than the Beatles. I guess you did not see , but I smiled across the pillows because I know you loved them more than me, but frogged me inside.

And my memory was running through the chords of Bob Dylan took me to that Monday you made ​​me call work and say I was sick and could not work . I felt too guilty and you came up with that hot coffee in bed smiling at me with his crooked smile that I loved since the first day I saw. We spent one day at home , in between kisses and naps , thousands of coffee mugs , all the classics from Netflix and burnt popcorn. We divide your couch and I whispered in his ear that could do this for the rest of my life.

You made ​​me a better person , believe me. Not all defects in the world could change that. Not that stupid crisis of jealousy I had after a show , you remember that? There I was so stupid clown of following in his footsteps, thinking you were jinxing the little girl who screamed his name throughout the presentation, while you was preparing myself the best surprise I could have. I do not expected flowers, dinner,music,much less the ring.

I should have said yes, but I asked: Where did you get that? Between silly smiles you answered: That should be the part that you say Yes. I said.

I thought I could , I swear. But after that our love flowed .

And no more ring or propose. The flowers have wilted , spoiled wine and dinner is frozen.

Hora de Dormir

A madrugada se arrasta e eu me mexo de um lado para o outro procurando seu calor.

Sinto falta da sua pele grudada na minha, do emaranhado de nossas pernas e das mãos entrelaçadas. Cochilo abraçada ao vazio e quando acordo no meio da noite respiro fundo para tentar resgatar seu perfume guardado na minha memória.

Minha cama sem você fica vazia, grande demais só para mim.