Por decreto

Ainda penso se a gente continuaria junto por muito tempo ou se nossa relação estava fadada ao fracasso.

Talvez você já não estaria ocupando meu sofá faz tempo. Talvez suas roupas já não estariam mais misturadas nas minhas e as tarde de domingos seriam como são para mim ultimamente: vazias!

Imagino se o que a gente sentia sobreviveria a distância que separou a gente por um tempo. Não quis pagar pra ver, abri mão antes.

Nossa música me acordou hoje, uma trollagem made in Spotify. Por um momento ouvi seus passos no corredor, me remexi na cama afastando os lençóis pensando se voltei para o quarto do 43B, senti até o cheio do café vindo da pequena cozinha e seus resmungos de reclamação porque estava fazendo tudo errado.

Mantive os olhos fechados por um tempo esperando pra ver se você abria a porta do quarto para deitar ao meu lado e me acordar beijando minha testa. Você não veio.

Nosso fim já estava decretado.

 

 

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Estamos indo de volta pra casa

Ainda não me dei conta que estou indo para casa. Isso não vai acontecer agora, eu sei.

Vai acontecer apenas quando eu estiver decolando naquele avião e quando eu tiver abraçando minha família, meus amigos.

Vai acontecer quando eu estiver desfazendo as malas, entregando os presentes, decorando o quarto novo. Cozinhando para os amigos e voltando a receber ligações no meu celular.

Vai acontecer quando eu acordar cedo para trabalhar, quando sentar novamente na mesa do escritório e voltar a fazer o que amo.

Vai acontecer quando eu enfrentar o metrô lotado, quando eu encarar o corredor do supermercado e não encontrar mais Oreo por preço de banana. Quando não tiver mais Primark para as compras baratas e Tesco na esquina de casa.

As mudanças serão muitas. São dois anos fora, os amigos tem vidas diferentes, a família também mudou. Eu mudei.

Nos dois anos de vida e mochila na Europa me fizeram uma pessoa diferente. Volto ao Brasil feliz por ter vivenciado tanta coisa, conhecido tanta gente, viajado por mais de 8 países. Carrego comigo algumas rugas dos quase 32 anos, uma pouco menos de cabelo e uma bagagem pesada de conhecimento.

Triste por deixar para atrás pessoas que viraram minha família, lugares que me abraçaram como parte deles e uma país que me adotou por inteira. Na Inglaterra ficarão memórias de dias inesquecíveis, nem sempre fáceis. Dias lindo de sol, muitos de chuva. Dias de maratona de programas de televisão britânico, dias de neve até o tornozelo. Dias de comida congelada do Tesco, dias de sessão Masterchef nas cozinha das casas que dividi com pessoas do mundo todo.

Na pele levo cravada uma coroa, pra vida inteira ter comigo cada momento que vivi aqui. Minha mãe vai chiar, meu pai vai odiar, minhas irmãs vão ignorar e eu eu? Eu acho isso uma lindeza só.

Em 20 dias o ciclo se fecha. Vem os dias chatos de colocar tudo nas malas de novo, de dizer adeus aos amigos que ficam, de mudar o cabelo de novo! De enfrentar a chatisse de check in de aeroporto, de correr para não perder as conexões e as intermináveis horas de voo.

Em 20 dias um novo ciclo do recomeço se inicia. Eu, finalmente, tô indo de volta pra casa.

Não tenho medo, pode vir que tô pronta.

Nossa pequena cozinha (Our little kitchen)

Sai do luto e me deixei lembrar de você.

Por dois minutos lá estava você descalço na minha cozinha, ainda com os cabelos molhados e cheirando ao meu shampoo.

Enquanto cortava os tomates você abria a garrafa de vinho. Juntos cantarolávamos a nossa música, e lembro de pensar quão impressionante era dois jovens como nós gostar tanto de nosso vinis mais antigos que nosso avós.

A casa cheirava a manjericão e azeite. Sua mão na minha cintura, sua boca no meu ouvido me convidando para dançar. “O spaghetti pode esperar, honey” você dizia e no meio da cozinha a voz rouca do Harry Connick nos fazia rodar.

Adorava o jeito que você piscava e sorria enquanto o vinho de nossas taças balançavam, você arriscava me impressionar com passos de dança naquela cozinha minúscula  – que por muito tempo foi nosso lugar favorito.

No fim da música você me beijava e trocava o vinil. Eu terminava de cozinhar ao som de Charles Aznavour e buscava ignorar seu sorriso de deboche nas minhas costas ao me ouvir tentar cantar em francês, fingindo estar brava eu dizia para você terminar a salada.

A música terminou com o bipe do microondas me avisando que a lasanha congelada estava quente. Meu jantar estava pronto e deixei você ir embora.

“Fomos felizes”, pensei enquanto apagava as luzes.

Out of mourning and I let me remember you.
For two minutes there you were barefoot in my kitchen, yet with wet hair and smelling my shampoo.
While I was cutting tomatoes while you opened the bottle of wine. Together we singing our music, and I remember thinking how awesome is two young people like we love so much of our vinyls more older that our grandparents.
The house smelled of basil and olive oil. Your hands on my waist, your mouth in my ear asking me to dance. “The spaghetti can wait, honey,” you said and in the middle of the kitchen Harry Connick made us dance.
I loved the way you blinked and smiled as the wine of our glasses shook, you risked impress me with dance moves into my tiny kitchen – which had long been our favourite place.
At the end of the song you kissed me and went to change the vinyl. I finished cooking listening Charles Aznavour and I tried ignore your smile of debauchery on my back while you heard me try to sing in French. I pretending to been angry with you said to you finish the salad.
The song ended with the beep of the microwave saying me that frozen lasagne was hot. My dinner was ready and I let you go.
“We were happy,” I thought as I turned out the lights.

She gon’ let it burn (ela vai deixar queimar)

The noise of the vibrating cell phone on the table caught her attention . Still wrapped in the towel and wet hair she picks the device and the green box identifies the Whatsapp winking at her .
“I don´t believe” she thinks as she runs her fingers in search of the text . The brightness of the screen makes your skin glisten and an amused look follows the lines of the message .
– Can we talk? He asks .
– Depends on what you want to talk . What about? She clicks send .
Moments later his response appears on the phone screen .
– Went to the cinema alone today , I came home and started think of you . In our film sessions in the middle of the day , the stolen kisses in the street … I put Marvin Gaye to play .
A half smile appeared disguised on her face as she replied :
– Our music does not stop playing since I gave you that kiss goodbye. And keeps playing in my mind every night when I lie down to sleep and miss your skin on mine, in your breath lost in my hair  and the sound of your voice telling me goodnight.
The phone was slow to light up again and when vibrated came with the message :
– I don’t know , I think I kinda miss you .
– Just think or sure?
– I’m sure . What are you doing here now?
She not answered .
She dropped the towel on the bedroom floor and put on Let ‘s get it on to play…

____

O barulho do celular vibrando em cima da mesa chamou a sua atenção. Ainda enrolada na toalha e com os cabelos molhados ela pega o aparelho e identifica a caixinha verde do Whatsapp piscando para ela.

“Não acredito”, ela pensou enquanto corre os dedos em busca do texto. O brilho da tela faz sua pele cintilar e um olhar divertido acompanha as linhas da mensagem.

– Podemos conversar? Ele pergunta.

– Depende do que você quer falar. Qual é o assunto dessa vez? Ela clica em send.

Instantes depois a resposta dele aparece na tela do celular.

– Fui ao cinema sozinho hoje, voltei para casa e pensei em você. Em nossas sessões de cinema no meio do dia, nos beijos roubados no meio da rua… Coloquei Marvin Gaye para tocar.

Um sorriso meio disfarçado apareceu no rosto dela quando respondeu:

– Nossa música não para de tocar desde que te dei aquele beijo de despedida. E continua tocando em minha mente toda noite quando deito para dormir e sinto falta da sua pele na minha, na sua respiração perdida nos meus cabelos e do som da sua voz me dizendo boa noite.

O telefone demorou a acender novamente e quando vibrou veio com a mensagem:

– Sei lá, acho que meio que sinto sua falta.

– Apenas acha ou tem certeza disso?

– Tenho certeza. O que está fazendo aí agora?

Não respondeu.

Abandonou a toalha no chão do quarto e colocou Let’s get it on para tocar.

There be love

E nos arquivos perdidos do meu HD eu encontrei você em uma foto embaçada. Sua mão esquerda segurava meu cotovelo e a direita estava em meu rosto. Você sorria, como fazia todas as manhãs quando eu sonolenta tentava dormir mais cinco minutos.

Sabe, foi amor.

Foi amor quando você numa manhã caótica apenas colocou a mão no meu ombro e me disse “bom dia, sem açúcar” e me entregou aquele copo de café. Por alguns minutos o calor do seu toque permaneceu no meu corpo e eu fiquei sem respirar.  Amor foi quando você apareceu naquele mesmo dia no saguão do hotel e me ofereceu uma cerveja.

Amor eram nossas manhãs de domingo, você ali sentado ao meu lado lendo o jornal. Juntos comentavamos as noticias do mundo enquanto o café e o pão na chapa ficavam frios ao nosso lado. Compartilhávamos horas de silencio sentados no sofá e você devagarinho pegava na minha mão e sem dizer uma palavra eu sabia tudo o que você queria me dizer.

Amor foram todas as mensagens que espalhava pela casa, suas cuecas misturadas nas minhas meias, sua toalha molhada em cima da cama. Amor foram horas esperando você terminar de fotografar e correr para ficar comigo num sábado a noite assistindo filmes antigos na TV e brigando pela ultima pipoca do pacote.

Amor foi aquele dia de chuva em São Paulo que corremos até nossa padaria predileta e dividimos um sonho cheio de creme e açúcar. Naquele dia, compartilhamos o sonho de padaria e o sonho de passar o resto da nossa vida juntos. Amor foi o momento que você limpou o canto da minha boca e pegou aquela caixa aveludada azul de dentro do seu bolso.

Não lembro quanto tempo levou, mas eu vi amor nos seus olhos no momento que você me abraçou depois que eu disse sim. Foi amor por mais três anos.

Ainda é amor, sabe. De um jeito diferente, meio saudosista, meio nostálgico.

Mas hoje, quando eu estendi uma toalha na grama e olhei o céu, como nos filmes que se criam na minha cabeça, eu quis alguém comigo. Eu quis alguém pra gastar noites planejando futuro. Futuro que talvez nem cheguem e desejei do fundo do meu coração que não lhe falte amor.

Que tenha muito amor para te mostrar que corações são capazes de sarar.

 

Sinto sua falta.

______

And the lost files from my HD I found you in a blurry photo. Your left hand was holding my elbow and your right was in my face. You smiled, as you did every morning when I sleepily tried to sleep five more minutes.

You know, it was love.

It was love when a chaotic morning you just put your hand on my shoulder and said “good morning, no sugar” and handed me one cup of coffee. For a few minutes the warmth of your touch remained in my body and I was not breathing. Love was when you showed up that day in the lobby and offered me a beer.

It was love every Sunday mornings, when you sat there beside me reading the newspaper. Together commenting on the news of the world while coffee and bread on plate next to us were cold. We shared hours of sitting quietly on the couch and you slowly took my hand and without a word I knew everything you wanted to tell me.

It was love all the messages that were scattered around the house, in your underwear mixed my socks, your wet towel on the bed. It was love when you finish your work and run to stay with me on a Saturday night watching old movies on TV and fighting for the last popcorn package.

It was love the one day of rain in São Paulo we ran to our favorite bakery and shared a dream full of cream and sugar. That day, we share the dream bakery and the dream to spend the rest of our lives together. Love was when you wiped the corner of my mouth and got that velvety blue box inside your pocket.

I do not remember how long it took, but I saw love in your eyes when you hugged me after I said yes. It was love for another three years.

Is still love, you know. In a different way, wistful, nostalgic.

But today, when a spread a towel on the grass and look at the sky, like in the movies that are created in my head I wanted someone with me. I wanted someone to spend nights planning future. Future that may not come and I wished from the bottom of my heart that not lack love for you. That you receive so much love to show you that love are able to heal hearts.

Miss you.

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