Por decreto

Ainda penso se a gente continuaria junto por muito tempo ou se nossa relação estava fadada ao fracasso.

Talvez você já não estaria ocupando meu sofá faz tempo. Talvez suas roupas já não estariam mais misturadas nas minhas e as tarde de domingos seriam como são para mim ultimamente: vazias!

Imagino se o que a gente sentia sobreviveria a distância que separou a gente por um tempo. Não quis pagar pra ver, abri mão antes.

Nossa música me acordou hoje, uma trollagem made in Spotify. Por um momento ouvi seus passos no corredor, me remexi na cama afastando os lençóis pensando se voltei para o quarto do 43B, senti até o cheio do café vindo da pequena cozinha e seus resmungos de reclamação porque estava fazendo tudo errado.

Mantive os olhos fechados por um tempo esperando pra ver se você abria a porta do quarto para deitar ao meu lado e me acordar beijando minha testa. Você não veio.

Nosso fim já estava decretado.

 

 

Não toque a campainha

Feche a porta antes de entrar, mas não tranque com a chave.

Não precisa ser na ponta dos pés.

Entre invadindo tudo.

Faça barulho na cozinha enquanto pega as canecas para o café.

Deixe a água do chuveiro correr por mais tempo que necessário.

Derrube a toalha molhada em cima da cama.

Invada meu guarda-roupa.

Misture seus pares de meias a minha lingerie.

Jogue suas pernas nas minhas no sofá e roube o controle remoto.

Ocupe mais que a metade da cama e me abrace antes de dormir.

Me acorde com o cheiro de panquecas e o barulho da louça na mesa.

Vem que a casa agora tua. Entre, fique à vontade!

Foi por isso que a gente terminou – 2

http://www.youtube.com/watch?v=OQM5-Ks64is A palheta quebrada que me deu no dia que nos conhecemos é uma das coisas que guardei na caixa. Colei elas com durex, como alguém que cola os pedacinhos de um coração dilacerado e tomei todo o cuidado do mundo para preservar o que você tinha escrito nela com aquela canetinha vermelha que roubou do barman, com aquele garrancho torto você escreveu tudo junto “medá” tava de um lado e “umbeijo” do outro. Você tinha que ser músico, óbvio. Ainda posso sentir o cheiro de cigarro contrastando com o chiclete de menta que mascava e seu perfume, meio tímido passou por mim que estava sentada no balcão do bar e piscou indo fumar no frio de São Paulo – eu nunca entendi como você preferia enfrentar o vento gelado cortando seu rosto a esperar para fumar um cigarro. Tentei resistir, eu juro. Pedi um cigarro para o barman e fui atrás de você, fiquei ali batendo os pés na calçada judiada da Rua Augusta tentando não pensar nos meus ossos congelando lentamente, coloquei o cigarro na boca e pela primeira vez encarei seus olhos castanhos esverdeados. Rapidamente você tirou o esqueiro do bolso e na minha primeira tragada descobriu que fumar não era do meu costume, porque me afoguei em toda aquela fumaça e tossi até meus olhos encherem de lágrimas. Naquela hora pensei que tinha te perdido, confesso! Estava errada, você tirou o cigarro da minha boca e jogou no chão. Murmurando alguma coisa clichê como “fumar faz mal pra saúde, larga mão dessa porcaria” enquanto pisava nele chutando para se misturar as milhares de bitucas que entupiam a sarjeta. Não disse uma palavra mais apenas me pegou pela mão e me conduziu de volta ao calor do bar, sentado ao meu lado você nem se deu ao trabalho de perguntar o que queria beber, pediu ao barman dois Jack Daniels e deslizou o copo reluzente e sem gelo para mim. Sorri meio sem graça e levantei meu copo pedindo cheers. Você não me beijou aquela noite, eu não deixei. Não queria que roubasse um beijo carregado de álcool, definitivamente você não era o tipo de cara que valia uma noite só. Conversávamos sobre música, cinema, literartura,política mas não discutimos religão. Você tocou mais um monte de rock setentinha que amo e fechou a noite me dedicando Bob Dylan apenas com o olhar. Você me ganhou naquela hora. No fim da noite beijei a palheta que me deu e guardei no bolso prometendo a você que atenderia sua ligação, te abracei e fui embora. No dia seguinte você não ligou e o jeans com a palheta ainda no bolso foi mandado para a lavanderia. Demorou três longos dias para você ligar, eu quase nem atendi a ligação. Estava lidando com um dia caótico, um editor maluco e um deadline de duas horas. Mas você insistiu e me venceu pela curiosidade, não fiquei com seu número e quando ouvi sua voz dizendo alô eu sorri. Devagarinho você foi ganhando espaço na minha vida, fui deixando você entrar no meu dia, nos meus jantarzinhos improvisados, nas festas de aniversário dos amigos, nas noites em claro tentando fechar um texto para o jornal, nas roupas espalhadas pela casa até ganhar espaço no meu guarda-roupa e ao lado esquerdo da minha cama. Aos fins de semana nós abriamos o guia da Veja SP e num minha mãe mandou escolhíamos uma padaria qualquer em São Paulo que prometia um café da manhã íncrivel e lá sentávamos por horas com nossos jornais, revistas, livros e muitas xícaras de expresso duplo e pão na chapa. As notícias eram comentadas de tempos em tempos. “A situação tá feia para a presidenta” você dizia e eu respondia  “O novo filme do Woody Allen está sendo fortemente criticado pela imprensa” e daí você sorria e pedia mais um café porque não fazia ideia de quem era Woody, mas adorava Frank Capra tanto quanto eu. E o dia terminava com a gente no sofá esperando o delivery da comida chinesa. Perdidos em pequenas caixas de arroz de jasmim, frango com gengibre e biscoitos da sorte conversávamos muito sobre absolutamente tudo e nada. “Para de enrolar, quebra logo seu biscoito” eu disse esticando as pernas para apoiar meus pés na mesinha da frente. Com um aperto certeiro o biscoito virou uma farofa nas suas mãos “Beije quem você ama agora” ele disse e me beijou, seu hálito era uma mistura de cerveja, gengibre e doce do biscoito. “Não estava escrito isso” eu disse fazendo biquinho e tentando resgatar o pequeno papel de suas mãos. Pareciamos duas crianças pulando uma em cima da outra no sofá, até que por vencido você caiu no chão. Eu ganhei a luta tirando o papel de suas mãos. “A verdade te libertará” li em voz alta e o que poderia ser uma premonição ficou no ar. Juntei as caixas de papel engorduradas e as garrafas de cerveja na pia da cozinha enquanto você procurava algum filme na televisão. No dia seguinte você me acordou querendo me surpreender com um café na cama. Achei a atitude tão fofa que jurei para eu mesma que iria ignorar que o pão de queijo ainda estava gelado, os ovos mexidos estavam apimentados demais e eu não tomo leite. Você apareceu todo atrapalhado tentando abrir a porta e equilibrar a bandeja ao mesmo tempo. “Bom dia, dorminhoca” disse colocando tudo num canto da cama. Eu ainda mantinha a cabeça no travesseiro antes de pensar em responder algo: Por favor, é domingo e ainda são 9 da manhã. Mudei minha ideia quando devagarinho abri meus olhos e te vi sentado, sorrindo ainda vestindo suas calças de pijamas xadrez. “Bom dia, tiger”. Como uma blusa em promoção, um doce na vitrine da padaria você sempre estava lá. Eu não nunca te procurei e agora você era tudo o que queria. E quer saber? O negócio de ter o que seu coração deseja é que seu coração não sabe o que deseja até aparecer. E foi por isso que a gente terminou.

Por isso a gente terminou

Estou contando para todo mundo porque a gente acabou. Falar de você ainda é tão prazeroso que apenas reunir os amigos para contar todas as nossas histórias não era o suficiente, então, resolvi escrever como um pequeno texto contando toda a verdade.

A verdade? A pura verdade, é que porra, eu te amei demais.

No fundo do meu guarda-roupa encontrei cheia de poeira uma caixa de sapatos da Shoestock, depois de um crise de espirros – porque você já estava acostumado com minha rinite alérgica pronta para atacar em qualquer segundo – eu resolvi remover a tampa. Claro que dei aquela boa assoprada em todo aquele pó cheio de ácaros antes de lidar com a lembrança da nossa primeira grande briga. Até hoje não acredito que foi por causa de uma caixa de papelão.

Eu te avisei que era melhor você ir jogar peteca com seus amigos, mas você insistiu que ia ser divertido passar a tarde de sábado fazendo compras comigo e até disse que um dos seus amigos lhe falou que o café gratuito que a loja fornecia aos enfadonhos acompanhantes valia a espera. Você esperou.

Tão bonitinho, você ficou ali sentado me vendo experimentar todos os sapatos que achava legal. Ria quando eu tropeçava no saltos altos e até me ajudou a brigar com aquela velha doida que queria roubar as únicas sapatilhas amarelas neon que achei no meu número. Daí depois, te puxei pelo colarinho daquela camiseta do Rolling Stones que eu O_D_I_A_V_A para a seção de bolsas.

Ainda consegui ouvir o som da sua risada fazendo piada com aquela bolsa verde limão plastificada, você colocou ela nos ombros e desfilou fazendo a cena entre as araras arrancando olhares suspeitos das mulheres que não sabiam se escolhiam um modelo caramelo ou um marrom, o que para você era o mesmo. Eu estava ali no mesmo dilema de todas as mulheres do corredor quando você me assustou me abrançando e dizendo que esquecesse o marrom e apostasse no preto “Porque eu li numa revista enquanto esperava no dentista que preto é básico” você disse me beijando na orelha. Você cheirava a limão misturado com aquele cheiro de couro.

Por várias vezes naquele dia pensei que era sortuda de ter escolhido você. Mas, depois veio aquela fila infernal para pagar, aquela loira carregada de sacolas que resolveu que não calçava 40 mas 39 e pediu para trocar todos os pares de sapatos enquanto todo mundo só queria pagar a conta e ir tomar sorvete. Minha vez chegou, você me empurrou para o caixa e esperou pacientemente ele processar minhas compras, você lembra do cabelo bizarro do atendente? Aquele topete de gel asqueroso e ele era fanho!

E precisou me perguntar três vezes para eu entender se eu queria caixas para os sapatos e foi aí que a gente brigou. Eu disse sim, você disse não. Eu perguntei por que? Você disse que fazia volume e que meu apartamento já era pequeno para mim imagina com mais caixas. Eu me ofendi, achei que estava tirando sarro por eu viver num cubículo no centro de São Paulo e falei pro atendente que queria caixas e uma sacola para cada item que comprei.

Quase carreguei a fila inteira comigo até a porta, pedindo desculpas e empurrando as canelas de todos mundo com aquelas sacolas e caixas. Acho que atropelei uma criança, mas não lembro direito porque não olhei para trás com medo da possível ira materna que poderia vir atrás de mim. Fui direto para o carro, você emburrado me seguiu e depois de prender o cinto falou que não precisava fazer aquela cena toda e pediu desculpa.

Eu orgulhosa desde do meu primeiro dia de vida, te ignorei. Não ia te perdoar tão fácil, mas na verdade já tinha te perdoado desde que dei partida no carro. Quando cheguei no meu apartamento que você tinha razão quase não cabia eu deslizei as sacolas corredor adentro e joguei todas as caixas fora, mas guardei apenas uma. Queria manter na lembrança nossa primeira discussão.

Ainda naquele mesmo dia depois da gente ter lambido as caixas de comida chinesa do restaurante suspeito da XV de Novembro, quebrar nossos biscoitos da sorte e entupidos de comida cairmos no sono deitados de qualquer jeito de transversal na cama você tropeçou na caixa para chegar ao banheiro e voltou pra cama com a cara amassada e cheia de migalhas de biscoito. Eu ri.

Mesmo amassada nomeei aquela caixa branca e agora meio torta como nossa Pandora. Agora abrindo a tampa eu sorrio ao ver que escrevi de caneta preta meu poema favorito de Fernando Pessoa.

Eu não te amo mais, óbvio que não, mas ainda tem coisas que gostaria de falar. Você sabe que sempre desejei ser escritora, mas você nunca leu de verdade todos os livros que escrevo na minha cabeça e foi por isso que a gente terminou.

She gon’ let it burn (ela vai deixar queimar)

The noise of the vibrating cell phone on the table caught her attention . Still wrapped in the towel and wet hair she picks the device and the green box identifies the Whatsapp winking at her .
“I don´t believe” she thinks as she runs her fingers in search of the text . The brightness of the screen makes your skin glisten and an amused look follows the lines of the message .
– Can we talk? He asks .
– Depends on what you want to talk . What about? She clicks send .
Moments later his response appears on the phone screen .
– Went to the cinema alone today , I came home and started think of you . In our film sessions in the middle of the day , the stolen kisses in the street … I put Marvin Gaye to play .
A half smile appeared disguised on her face as she replied :
– Our music does not stop playing since I gave you that kiss goodbye. And keeps playing in my mind every night when I lie down to sleep and miss your skin on mine, in your breath lost in my hair  and the sound of your voice telling me goodnight.
The phone was slow to light up again and when vibrated came with the message :
– I don’t know , I think I kinda miss you .
– Just think or sure?
– I’m sure . What are you doing here now?
She not answered .
She dropped the towel on the bedroom floor and put on Let ‘s get it on to play…

____

O barulho do celular vibrando em cima da mesa chamou a sua atenção. Ainda enrolada na toalha e com os cabelos molhados ela pega o aparelho e identifica a caixinha verde do Whatsapp piscando para ela.

“Não acredito”, ela pensou enquanto corre os dedos em busca do texto. O brilho da tela faz sua pele cintilar e um olhar divertido acompanha as linhas da mensagem.

– Podemos conversar? Ele pergunta.

– Depende do que você quer falar. Qual é o assunto dessa vez? Ela clica em send.

Instantes depois a resposta dele aparece na tela do celular.

– Fui ao cinema sozinho hoje, voltei para casa e pensei em você. Em nossas sessões de cinema no meio do dia, nos beijos roubados no meio da rua… Coloquei Marvin Gaye para tocar.

Um sorriso meio disfarçado apareceu no rosto dela quando respondeu:

– Nossa música não para de tocar desde que te dei aquele beijo de despedida. E continua tocando em minha mente toda noite quando deito para dormir e sinto falta da sua pele na minha, na sua respiração perdida nos meus cabelos e do som da sua voz me dizendo boa noite.

O telefone demorou a acender novamente e quando vibrou veio com a mensagem:

– Sei lá, acho que meio que sinto sua falta.

– Apenas acha ou tem certeza disso?

– Tenho certeza. O que está fazendo aí agora?

Não respondeu.

Abandonou a toalha no chão do quarto e colocou Let’s get it on para tocar.